
Se o mundo se preocupa com as bombas atômicas de Donald Trump e Vladimir Putin, o que hoje mais assombra o Brasil é algo bem mais simples — e potencialmente mais explosivo: uma língua. Especificamente a de Daniel Vorcaro. Ela se tornou o maior ativo da política e da economia brasileiras, de tal maneira que já não é possível saber se ela vale mais dentro ou fora da boca do pseudoempresário.
O Brasil é mesmo um país sui generis. A Operação Lava Jato foi a maior destravadora de línguas da nossa história. Muita gente virou língua de trapo para não ir parar atrás das grades. Até certo ex-ministro de língua presa falou. E, graças a estes linguarudos, o país pode saber o tamanho do assalto que, durante anos, foi feito ao dinheiro dos pagadores de impostos, detalhe por detalhe.
Teve ex-governador língua de trapo, advogado com língua ferina, jornalista com língua venenosa, comparsa com língua afiada, gente que chegou até a ficar com a língua de fora de tanto falar. No entanto, como sabemos, todos que aplaudiram e torceram pela maior oportunidade que tivemos de ver corruptos e corruptores presos acabaram queimando a língua.
A Lava Jato foi totalmente desmantelada, as línguas de trapo voltaram para dentro das respectivas bocas, assim como boa parte do dinheiro desviado acabou encontrando o caminho de volta para as contas de origem.
Chegamos agora a mais um escândalo – aliás, mais dois, pois o caso do Banco Master e o roubo do INSS não caminham separados, e, exatamente por isso, a língua de Daniel Vorcaro passou a ser, possivelmente, o órgão mais valioso hoje em circulação na República. Apesar de estar dentro da boca de Vorcaro, ela tem afetado o paladar de dezenas ou centenas de pessoas, gente que torce, reza e é capaz até de pagar para que ele não mostre a língua para ninguém.
O medo é tão grande que é provável que no cardápio do STF, pratos como língua ou linguado tenham sido completamente abolidos, afinal, trata-se de iguaria demasiadamente musculosa. Não seria surpresa se até línguas de sogra tivessem sido discretamente desencorajadas em festinhas de aniversário de funcionários. Ninguém ali quer línguas compridas no cenário - elas atrapalham a mastigação, o bolo alimentar não desce, e a saliva parece não ser suficiente nem para ajudar na limpeza.
No Congresso Nacional, a situação não é diferente. Vários senadores e deputados andam mordendo a língua diante de microfones, além de serem obrigados a engolir uma oposição de língua ferina querendo colocar tudo em pratos limpos. Quem tem a língua a prêmio morre de medo de quem tem a língua vendida para falar o que sabe ou a língua comprada para que não articule uma palavra.
O caso do Banco Master mudou até mesmo o linguajar da imprensa brasileira. Até seu surgimento, jornalistas endossavam a ideia de que o STF só fazia o certo, “enchiam linguiça” em seus noticiários para manter vivas narrativas que interessavam à corte, aplaudiam atos de certos ministros como se fossem figuras exemplares que só agiam dentro da lei.
Mas, pau que bate em Chico, bate em Francisco, e os heróis da democracia partiram para cima da imprensa que os defendia. Isso não deu para sustentar. A notícia correu o mundo em diversas línguas, e o que já se sabe torna a situação indefensável.
Nos últimos dias, porém, algo mudou no tabuleiro. A relatoria saiu das mãos de Dias Toffoli e passou a André Mendonça, que retirou parte das amarras que vinham contendo a Polícia Federal e abriu caminho para que a CPMI do INSS tenha acesso às provas colhidas no caso Banco Master. Evangélico assumido, Mendonça parece disposto a permitir que algumas línguas de fogo iluminem finalmente o que até aqui permaneceu nas sombras.
Ao mesmo tempo, porém, concedeu habeas corpus que permite a Daniel Vorcaro manter a língua bem guardada dentro da boca – ao menos por enquanto. Resta saber por quanto tempo esse silêncio seguirá valendo tanto. Porque, no Brasil de hoje, a pergunta continua ecoando pelos corredores de Brasília: afinal, quando a língua de Vorcaro vale mais — dentro ou fora da boca?
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