
Se o entrave para o crescimento do Brasil pudesse ser debitado apenas aos políticos, eu concordaria com quem dissesse que o título deste artigo está errado e que o correto seria “Brasil, um país impedido de crescer”. Acontece que quem elege os políticos é o povo – mais de 100 milhões de eleitores – e todos sabem, em maior ou menor grau, em quem estão votando, especialmente para a Presidência da República. Portanto, se há uma recusa em crescer, ela nasce, antes de tudo, nas nossas escolhas.
A eleição de 2022, independentemente de suspeitas levantadas por setores da sociedade, reconduziu à Presidência alguém que já havia sido condenado em instâncias da Justiça por corrupção e lavagem de dinheiro, decisões posteriormente anuladas por questões processuais. Ainda assim, recebeu milhões de votos. Esse dado, por si só, não pode ser ignorado.
Também não se pode dizer que o eleitor votou sem referências. Durante a campanha, estavam claras as sinalizações econômicas, os alinhamentos políticos e o grupo que cercaria o novo governo. O país já conhecia não apenas os dois mandatos anteriores de Lula, mas também os efeitos do governo Dilma Rousseff, que culminou na maior recessão da história recente.
É confortável atribuir a responsabilidade apenas a “outros eleitores”. Mas a pergunta incômoda vem depois da eleição. Após o 8 de janeiro e a prisão de centenas de manifestantes, o receio de ir às ruas é compreensível. O que já não se explica é a naturalização silenciosa de episódios controversos que se sucederam desde então. O que começou como medo, em muitos casos, evoluiu para omissão – e, no limite, para complacência.
O caso do Banco Master reacendeu a indignação popular, mas não se converteu em pressão institucional efetiva. Continuamos assistindo à escalada de tensões entre Poderes, à expansão de gastos públicos questionados e à hesitação do Legislativo em exercer plenamente suas prerrogativas. Nossas manifestações mais veementes seguem restritas a caracteres e memes. Não saímos do lugar. Apostar que a próxima eleição resolverá tudo pode ser mais esperança do que estratégia.
Aqui emerge a metáfora central. O episódio do Banco Master se assemelha a um quadro de congestão: quando há excesso ou acúmulo que impede o fluxo normal de um sistema.
Durante anos, o ambiente político-institucional brasileiro conviveu com irregularidades, disputas e zonas cinzentas que, pela repetição, passaram a ser tratadas quase como parte do metabolismo do poder. Mas todo organismo tem limite. Quando o excesso se acumula, surgem os sintomas.
Na congestão alimentar, o corpo reage com mal-estar e dificuldade de funcionamento. No ambiente político, os sinais aparecem como perda de confiança pública, conflitos institucionais recorrentes, judicialização crescente e a percepção difusa de que as regras nem sempre se aplicam com a mesma intensidade para todos.
O episódio do Banco Master, na leitura de muitos observadores, expõe justamente esse ponto de saturação. Mais do que discutir responsabilidades individuais, tarefa das instâncias competentes, o caso reforça a sensação de desconforto sistêmico quando episódios de grande repercussão produzem muito ruído e pouca consequência prática visível para a sociedade.
Quando autoridades dos três Poderes passam a surgir com frequência em ambientes de controvérsia, o problema deixa de parecer episódico e assume contornos estruturais. O organismo institucional continua funcionando, mas já não funciona bem.
Como em qualquer congestão, ignorar os sintomas não resolve o problema; apenas o adia. A crença de que “a próxima eleição resolve” funciona mais como antiácido momentâneo do que como tratamento de causa.
Sem transparência efetiva, responsabilização previsível e mecanismos de controle operando com equilíbrio, o risco não é apenas de novos episódios isolados, mas de um estado permanente de indigestão institucional, incompatível com um país que pretende, de fato, crescer.
O verdadeiro crescimento de um país não nasce apenas da economia ou de programas sociais, mas do amadurecimento do seu povo. Ele começa no momento em que a retórica deixa de bastar e a sociedade se recusa a engolir a comida estragada que lhe servem, exigindo, em seu lugar, responsabilidade, transparência e compromisso de verdade com a população.
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