Quinta, 20 de Agosto de 2026
17°C 32°C
São Paulo, SP

OS INTOCÁVEIS?

No Brasil de hoje, o problema já não é quem se corrompe — é quem não pode ser alcançado.

Hermínio Naddeo
Por: Hermínio Naddeo Fonte: Opinião
20/02/2026 às 11h08
OS INTOCÁVEIS?
Imagem IA

Certamente, as gerações mais jovens não assistiram ao filme Os Intocáveis, de 1987, dirigido por Brian De Palma, que contava a história do domínio do crime organizado nos anos 1930 na cidade de Chicago, quando imperava nos Estados Unidos a Lei Seca. Al Capone era o chefe da máfia que controlava a cidade e havia corrompido totalmente a Justiça e a polícia locais, podendo atuar livremente sem ter que prestar contas a ninguém.

Um jovem agente do Tesouro Federal americano, Eliot Ness, foi então designado para Chicago, com a missão de combater a criminalidade e prender Al Capone. Lá, ele formou uma pequena equipe, composta por um policial que fazia ronda nas ruas, um agente contador e um jovem policial da academia de polícia, escolhido por ser um exímio atirador.

A equipe de Eliot Ness foi chamada pela imprensa de Chicago de “Os Intocáveis”, por não ceder às seguidas investidas de Al Capone para tentar corromper seus integrantes. O começo das atividades de Eliot Ness foi quase todo fracassado.

O sistema corrupto avisava Capone das operações policiais, e as ações sempre fracassavam. Jim Malone, o policial de ronda, ofereceu-se para trabalhar com Ness por estar farto da corrupção que dominava a cidade. Foi dele a iniciativa que deflagrou a primeira grande vitória dos Intocáveis contra Capone.

Em uma cena do filme, Malone entra no escritório e pergunta a Ness se ele realmente quer combater Capone, se está preparado para o que virá pela frente. Recebendo o sinal positivo de Ness, ele pede que todos o sigam. Armados, atravessam a rua, invadem um estabelecimento que ficava exatamente em frente ao edifício onde estavam e “estouram” um depósito onde bebidas contrabandeadas eram processadas e distribuídas para venda.

A luta contra Capone segue durante todo o filme, até que, no final, ele não é preso por seus crimes, mas por não ter declarado imposto de renda. Poderia contar aqui toda a história do filme, mas este texto não é uma resenha cinematográfica, e sim um preâmbulo para um comparativo em relação ao Brasil.

Da Chicago da Lei Seca ao Brasil de hoje

Na minha avaliação, vivemos um momento grave da história do país — possivelmente um dos mais delicados do período recente —, um paralelo que, guardadas as proporções, lembra a atmosfera de degradação institucional retratada na Chicago dos anos 1930. A corrupção no Brasil continua sendo um problema estrutural e persistente, reconhecido reiteradamente por investigações, operações policiais e relatórios de órgãos de controle.

O que preocupa não é apenas a existência de agentes públicos corrompidos — algo infelizmente recorrente em diversas democracias —, mas a percepção crescente, em setores da sociedade, de que mecanismos de controle e responsabilização têm encontrado obstáculos cada vez maiores dentro das próprias engrenagens do Estado.

Se no filme os agentes do Tesouro americano agiam para combater os corruptos, no Brasil assistimos a conflitos institucionais frequentes envolvendo órgãos como Receita Federal, Banco Central e Polícia Federal — justamente estruturas que deveriam operar com máxima autonomia técnica. Os dados que foram fundamentais para prender Al Capone tornam-se, por vezes, objeto de disputas jurídicas e administrativas que dificultam sua utilização por quem afirma estar apenas cumprindo o dever de aplicar a lei de forma isonômica.

Os “intocáveis” da nossa realidade não recebem esse rótulo por recusarem propinas, como no filme, mas — na percepção de muitos críticos — pela dificuldade prática de que certas informações e decisões sejam efetivamente escrutinadas. Cresce, nesse ambiente, a desconfiança de que parte do sistema de freios e contrapesos esteja funcionando abaixo do que a sociedade espera.

A operação Lava Jato representou, com todos os seus acertos e controvérsias já amplamente debatidos, o momento mais próximo de um enfrentamento sistêmico da corrupção no país nas últimas décadas. O seu desfecho e as decisões posteriores do Judiciário abriram um debate ainda não encerrado sobre limites institucionais, garantias legais e alcance do combate à corrupção no Brasil.

Outro fato curioso em relação à cena da equipe de Ness atravessando a rua para invadir um depósito ilegal de bebidas é que, em Brasília, muitas vezes a solução de impasses institucionais parece estar a poucas quadras de distância — não por falta de instrumentos legais, mas por ausência de vontade política convergente.

Quando atravessar a rua virou um ato institucional

A Receita Federal segue operando sob forte pressão. A Polícia Federal cumpre determinações judiciais mesmo quando há controvérsia jurídica sobre elas. O Congresso Nacional dispõe de prerrogativas constitucionais relevantes, mas frequentemente hesita em exercê-las com a contundência que parte da sociedade demanda. Em muitos casos, bastaria — metaforicamente — atravessar a rua.

Se a Lei Seca americana proibia a fabricação, venda, transporte, importação e exportação de bebidas alcoólicas, o Brasil vive há anos algo que, na minha leitura, se assemelha a uma espécie de “Lei Seca” da efetividade das leis: normas existem, instrumentos existem, mas sua aplicação integral nem sempre ocorre com a previsibilidade e a firmeza que o Estado de Direito pressupõe.

Não existem “intocáveis” permanentes em uma República. Quando instituições voltam a funcionar com equilíbrio, transparência e responsabilidade — para todos —, o país tende a reencontrar seu eixo de normalidade.

Ouvi recentemente uma frase que resume bem o espírito deste debate: “não existe jeito errado de fazer o certo”. Talvez o que falte ao Brasil não seja um novo Eliot Ness, mas mais Jim Malones dispostos a atravessar a rua quando a lei assim exigir.

 

Compartilhe para que este artigo chegue a mais pessoas.

Deixe seu comentário! Sua participação e sua opinião são importantes para nós!

 

SIGA NAS REDES SOCIAIS

X - @nopontodofato

Instagram - @nopontodofato

Facebook – @nopontodofato

Spotify - No Ponto do Fato

LinkedIn - No Ponto do Fato

Tik Tok - @nopontodofato_

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Andre LimaHá 6 meses CuritibaSensacional
Mostrar mais comentários
Hermínio Naddeo
Hermínio Naddeo
Escritor/Jornalista, mestrado em palpitologia, doutorado em opinologia, pós-doutorado em falastronismo.

Administrador, publicitário, jornalista, com quase duas décadas de atuação na cobertura política e análise de conjuntura nacional. Especializado em leitura estratégica de cenários, mantém uma linha editorial independente e de viés conservador, com foco em liberdade, soberania e responsabilidade institucional. É colunista do site No Ponto do Fato, onde assina artigos que aliam crítica firme, ironia pontual e compromisso com a verdade. Registro profissional MT 22619/MG.
Ver notícias
São Paulo, SP
29°
Tempo limpo
Mín. 17° Máx. 32°
28° Sensação
5.14 km/h Vento
26% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
06h28 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Sexta
25° 15°
Sábado
19° 14°
Domingo
20° 14°
Segunda
14° 13°
Terça
18° 13°
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,19 +0,34%
Euro
R$ 6,06 +0,31%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 400,923,39 +4,64%
Ibovespa
167,927,16 pts 0.06%
Publicidade
Publicidade
Publicidade