
O governo decidiu intervir no mercado de vale-alimentação e vale-refeição via canetada, sob a justificativa de proteger o trabalhador e aliviar o custo da alimentação. O discurso é muito lindo, acerta em cheio o estômago do brasileiro, além de ser socialmente vendável e politicamente conveniente — especialmente em ano eleitoral.
O problema é que ele ignora a realidade econômica mais básica: o trabalhador não se alimenta de vale-alimentação ou vale-refeição. Ele se alimenta de comida.
Ao regular as taxas de intermediação das operadoras de VA/VR, o governo escolheu atuar sobre o meio, não sobre o fim. E, ao fazer isso, evitou deliberadamente enfrentar aquilo que de fato pesa no bolso do trabalhador: o preço dos alimentos.
O que impacta o preço da comida do brasileiro é o peso dos impostos embutidos em toda a cadeia, o custo da energia, a logística cara, o preço dos combustíveis, a insegurança jurídica e a inflação estrutural — não a taxa do VA ou do VR. Todos esses fatores já estão contemplados no momento em que restaurantes e supermercados calculam o preço dos produtos que vendem.
Arroz, feijão, legumes, frutas, ovos, carnes, leite, óleo, pão. É isso que define o padrão alimentar do brasileiro — e é isso que vem ficando mais caro. Nada disso é alterado quando se limita a taxa cobrada por uma operadora de vale, que sempre será proporcional ao preço do produto comprado.
Regular a taxa do VA/VR não reduz o preço da comida. No máximo, redistribui custos dentro da cadeia de pagamento. O prato do trabalhador continuará caro. A única coisa que muda é a narrativa do governo.
Há um ponto central que raramente é dito com clareza: o trabalhador não escolhe receber vale-alimentação ou vale-refeição, assim como não escolhe receber vale-transporte, planos de assistência médica ou ter retidos fundos compulsórios e contribuições indiretas. São instrumentos impostos como “benefício”, não como opção — mecanismos que reduzem encargos trabalhistas para o empregador, organizam o controle do gasto e transferem decisões do trabalhador para terceiros.
Se o trabalhador recebesse esses valores diretamente em dinheiro, sem encargos sociais adicionais, sem intermediários, teria liberdade real de escolha sobre onde comprar, o que comprar, quando gastar e como priorizar suas necessidades. Mas essa autonomia não interessa ao modelo vigente. É cabresto travestido de benefício. O verdadeiro beneficiado é a empresa, que deixa de pagar encargos sociais sobre esses valores.
O discurso oficial diz que esses instrumentos “protegem o trabalhador”. Na prática, eles o tutelam. O mesmo raciocínio vale para o FGTS, que rende abaixo da inflação por longos períodos, para descontos que financiam políticas públicas sem retorno proporcional e para benefícios geridos por intermediários privados ou estatais.
O trabalhador não decide, não negocia, não escolhe. Apenas é obrigado a receber, bovinamente, aquilo definido “para o seu bem”. Trata-se de uma lógica paternalista, não emancipadora.
Porque é rápido (via decreto), visível, midiático, concentrado em poucas empresas e politicamente seguro. Atacar o custo dos alimentos exigiria enfrentar tributos, mexer em ICMS e impostos federais, oferecer soluções para uma infraestrutura logística cara, defasada e deficitária, além de enfrentar os custos dos combustíveis e da energia. Tudo isso implica assumir custo fiscal e político real.
Ou seja, trabalho de verdade — e risco eleitoral. É mais fácil criar vilões na intermediação do que enfrentar o preço da comida.
O trabalhador continua pagando caro pelo alimento, continua reduzindo a qualidade nutricional e continua adaptando o consumo por falta de renda. Em contrapartida, recebe a ilusão de que o governo “fez algo”, de que as taxas foram reguladas e de que o problema foi enfrentado. O discurso foi entregue. A política pública termina onde começa o marketing.
O que pesa mais no orçamento do trabalhador: as taxas cobradas por operadoras de VA/VR ou o preço do alimento que ele coloca no prato todos os dias? A resposta é óbvia para qualquer um que faça compras no mercado.
Regular a intermediação não é política alimentar. É política simbólica. Enquanto o custo da comida não for enfrentado, qualquer discurso de proteção ao trabalhador será apenas retórica eleitoral.
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