
Há momentos na história em que não é possível permanecer neutro sem ser cúmplice. O que ocorre hoje no Irã é um desses momentos. Não se trata apenas de conflitos pontuais, de protestos isolados ou de mais um capítulo da longa disputa entre Ocidente e Oriente Médio. Trata-se de um povo inteiro empurrado às ruas pela exaustão econômica, pelo sufocamento moral e pelo cansaço histórico de viver sob um regime teocrático que governa em nome de uma minoria religiosa armada de medo, repressão e retórica divina.
É evidente que nenhum movimento popular nasce no vácuo. Há lideranças, há organização, há catalisadores. Mas o povo não vai às ruas por ideologia abstrata: vai por desespero. Vai quando a vida cotidiana se torna insustentável. E, ao que tudo indica, esse povo — o povo persa — conseguiu algo raro: botar medo no regime dos aiatolás. Medo real. Medo existencial. O tipo de medo que regimes autoritários conhecem bem, porque sabem que sua força não está no consenso, mas na intimidação.
Fala-se, inclusive, em algo que durante décadas parecia impensável: a possibilidade de uma restauração monárquica, talvez não como retorno nostálgico ao passado, mas como tentativa de uma monarquia moderna, constitucional, adaptada ao século XXI. A antiga monarquia caiu por razões reais — erros políticos, distanciamento popular, autoritarismo. Mas sua queda não legitimou o inferno teocrático que se seguiu. A história não é binária. O fato de um regime ter falhado não santifica automaticamente o que o substituiu.
Sempre tive profunda admiração pelo povo persa. E faço questão de dizer: persa, não árabe. A língua é persa, a cultura é persa, a identidade é persa. Uma das civilizações mais antigas da humanidade, com tradição intelectual, estética e política muito acima da média histórica. Ainda assim, a experiência ensina uma verdade incômoda: povo é povo em qualquer lugar do mundo. O que muda não é a essência humana, mas o grau de educação, consciência política e liberdade disponível para que essa essência se manifeste.
Viajei pelo mundo. Estive no interior da China, em áreas rurais, longe dos cartões-postais e da propaganda oficial. Fui recebido com gentileza, participei até de um casamento chinês numa pequena fazenda. Ali ficou claro: os anseios são universais — viver com dignidade, formar família, pertencer a uma comunidade, ter futuro. A humanidade é uma só; os sistemas políticos é que a deformam.
Voltando ao povo da Persia - foi em Montreal, porém, que vivi uma experiência particularmente marcante com o povo persa. Logo ao chegar, durante o processo de francização, frequentei uma escola de adultos. Tivemos o infortúnio de cair numa turma com uma professora de alma pequena — grosseira, autoritária, abertamente xenófoba. Tratava alunos como se estivesse repreendendo cães, com gritos, chiados e humilhações públicas. Não disfarçava o desprezo por estrangeiros.
Num dia de prova, havia cerca de oito iranianos na turma. Uma jovem iraniana ficou presa no elevador por uma pane técnica e se atrasou. Os colegas pediram que a professora aguardasse. Ela se recusou: “não é problema meu”. Minutos depois, a jovem ligou do elevador, chorando, dizendo que estava trancada. A professora manteve a mesma frieza.
Foi então que aconteceu algo raro. Todos os iranianos se levantaram. Todos. Em silêncio. E foram até a porta do elevador, em solidariedade, decididos a não fazer a prova enquanto a colega estivesse presa. A professora gritava, ordenava que voltassem. Ninguém voltou. O restante da classe, tocado pelo gesto, acompanhou os iranianos. A prova não aconteceu por falta de quórum.
Foi um ato simples, mas profundamente civilizatório. Um gesto de solidariedade concreta, não discursiva. Ali entendi algo essencial sobre aquele povo: a noção de coletivo, de honra compartilhada, de dignidade que não se negocia individualmente.
É por isso que o que ocorre hoje no Irã dói. Porque sabemos qual é o desfecho padrão desses regimes quando se sentem ameaçados. Promessas de “piedade” para quem recuar. Punições exemplares para as lideranças. O mesmo roteiro de sempre. O mesmo vocabulário: “golpistas”, “inimigos do Estado”, “agentes estrangeiros”. No Brasil, vimos isso recentemente sob a farsa do “golpe” que não aconteceu em 8 de janeiro. No Irã, o rótulo será outro, mas o método é o mesmo — com uma diferença brutal: lá, enforcamentos não são metáfora.
Os Estados Unidos prometeram ajudar. Voltaram atrás. O regime sabe disso. E por isso tende a ser implacável. Autocracias funcionam assim: quando sentem fraqueza externa, compensam com terror interno.
Este texto não é um manifesto ideológico. É um gesto de solidariedade. Ao povo persa que vai às ruas não por aventura política, mas por sobrevivência moral. Ao povo que sabe que recuar pode significar viver ajoelhado — e avançar pode significar morrer em pé. À nação persa, que carrega séculos de civilização e hoje enfrenta a brutalidade nua de um regime que confunde Deus com polícia.
Que o mundo não finja não ver. Porque a história já mostrou inúmeras vezes: quando a humanidade se cala diante da repressão alheia, prepara o terreno para a própria.