
Há algo de estranho no momento em que vivemos. Justamente agora, quando o mundo volta a falar com naturalidade em guerra, escalada militar e confronto entre potências, os últimos veteranos da Segunda Guerra Mundial estão desaparecendo.
Em 2026, restam pouquíssimos. A maioria tem mais de cem anos. Muitos já partiram, quase sem alarde, sem grandes homenagens, sem que suas histórias tenham sido plenamente ouvidas. São homens que viveram o pior conflito da história humana e que, pouco a pouco, deixam um mundo que parece disposto a repetir os mesmos erros.
Eles não falavam em heroísmo. Falavam em frio, fome, medo e cansaço. Falavam em noites sem dormir, em amigos que não voltaram, em ordens que não faziam sentido. Para quem esteve lá, a guerra nunca foi uma abstração estratégica nem um jogo de narrativas. Foi sobrevivência diária.
Talvez exista algo de quase misericordioso no fato de que muitos deles não estejam mais aqui para assistir ao clima atual. Eles sabiam, melhor do que ninguém, como tudo começa: discursos inflamados, inimigos simplificados, certezas morais absolutas. A guerra não surge de repente. Ela vai sendo normalizada, frase por frase.
Enquanto os últimos pracinhas brasileiros, soldados americanos, britânicos, alemães, russos e japoneses se despedem, o mundo parece redescobrir a linguagem do conflito com uma facilidade inquietante. Mudam os meios, mudam os nomes, mas o impulso é o mesmo.
A Segunda Guerra Mundial não é apenas um episódio distante dos livros. Ela foi um aviso claro do que acontece quando o fanatismo, o medo e a ambição se combinam. Um aviso que dependia de testemunhas vivas para manter seu peso real.
Agora, essas testemunhas estão quase todas ausentes.
Resta a nós decidir se a memória será suficiente ou se, mais uma vez, a humanidade precisará aprender da forma mais dolorosa possível.
A escola da Segunda Guerra existiu. O problema é que fomos péssimos alunos.