
Antes mesmo de chegar oficialmente às telas de cinema e de o DVD original ser lançado, Tropa de Elite já circulava amplamente nas bancas de DVDs piratas. Eu mesmo comprei uma dessas cópias. Queria ver o filme que não tinha assistido no cinema. Fiz isso, no entanto, com um compromisso público registrado em artigo: compraria o DVD original assim que fosse lançado. E assim o fiz. Não só comprei como ainda o tenho.
O Capitão Nascimento foi a redenção simbólica de uma parcela significativa dos brasileiros que, já naquela época, sentia a expansão da violência do crime organizado e ansiava por um Estado — ou ao menos por uma polícia — que agisse com a firmeza, a eficiência e o pragmatismo daquele esquadrão do BOPE comandado por ele. Não se tratava de um desejo por violência. Tratava-se da busca por uma sensação mínima de justiça, ainda que apenas no plano do imaginário. Era sentir, no cinema, o que era impossível experimentar na dura realidade cotidiana.
Existe uma tese segundo a qual Tropa de Elite teria sido concebido para denegrir a imagem da polícia, e que Wagner Moura teria aceitado o papel justamente por esse viés crítico. É uma leitura possível. Mas o cinema não funciona como ensaio acadêmico. Ele opera pela identificação. E a qualidade técnica de Moura como ator — algo que precisa ser reconhecido — fez com que o Capitão Nascimento respondesse a uma demanda real da sociedade: a ausência de justiça efetiva e a percepção de um Estado incapaz de proteger o cidadão.
Wagner Moura acabou incorporando o Capitão Nascimento que a sociedade esperava — e não o policial truculento que parte do projeto original parecia querer criticar. Se essa intenção crítica existia de forma clara, ela foi atravessada pela construção dramática do personagem e também pela participação de Rodrigo Pimentel, o policial que inspirou o Capitão Nascimento e colaborou no roteiro. O personagem foi reconhecido pelo público não por ideologia, mas pela eficiência e pelo pragmatismo com que exercia sua função, focado na missão de enfrentar o crime em um ambiente de colapso institucional.
A questão começa a se complicar quando quem deu vida a esse personagem — que representou o imaginário coletivo no combate à criminalidade — decide abandonar o mundo que produziu o Capitão Nascimento, mas continua a querer prescrever ao país uma leitura moral sobre ele. O público não errou ao interpretar o personagem. O equívoco esteve em imaginar que personagem e ator defendiam os mesmos princípios. Enquanto o Capitão Nascimento operava no campo da eficiência e da ação, Wagner Moura passou a se posicionar no campo da ideologia e do discurso.
Existem muito menos “capitães Nascimento” do que “Wagners Moura” no debate público. Os primeiros lidam com a criminalidade como um problema concreto, muitas vezes recorrendo ao excesso como método de eficiência. Os segundos relativizam o crime por meio de construções ideológicas que pouco ou nada entregam em termos de resultado prático. Crime não é conceito sociológico: é definição jurídica. Ele se estabelece entre o certo e o errado diante da lei. O discurso ideológico, por sua vez, navega no terreno do “talvez” e do “se”, sem oferecer respostas operacionais para um problema que exige ação.
No filme, a função do Capitão Nascimento foi apresentar uma resposta — ainda que extrema — a um problema real e em expansão. Fora da tela, resta a pergunta: qual é a função social de Wagner Moura além de sua indiscutível excelência técnica como ator, capaz de interpretar personagens tão distintos quanto Pablo Escobar, o símbolo máximo do crime organizado latino-americano, e Carlos Marighella, herói da esquerda revolucionária e figura que dialoga muito mais diretamente com suas convicções pessoais?
O reconhecimento internacional de Wagner Moura não aconteceu apesar de Tropa de Elite, mas por causa dele. Moura foi escolhido para o filme por seu talento, mas foi o Capitão Nascimento que o projetou definitivamente ao patamar de grande ator e abriu as portas do cenário internacional. Renunciar a essa carreira seria irracional. O problema começa quando essa ascensão vem acompanhada da decisão de sair do Brasil para viver no centro do capitalismo mundial e, ainda assim, continuar a prescrever aos brasileiros uma moralidade que ele próprio rejeitou como ambiente de vida.
Wagner Moura não é um caso isolado. Outros artistas de esquerda também optaram por viver fora do país sob o argumento da violência, sem que isso os impedisse de continuar intervindo moralmente no debate nacional. Escolhem sociedades mais seguras, mais prósperas, com maior liberdade de expressão, sistemas tributários mais racionais, regimes de trabalho flexíveis e remuneração em moeda forte. Fogem da violência estrutural que relativizam. Usufruem do capitalismo que dizem combater.
É nesse ponto que Wagner Moura deixa de ser apenas o intérprete do Capitão Nascimento e passa a ocupar outro papel: o de gestor simbólico de uma violência que já não vive, mas da qual continua extraindo capital cultural, político e financeiro.
O Capitão Nascimento segue operando no imaginário popular, enfrentando o caos que o ator escolheu abandonar. Moura, por sua vez, se coloca acima do conflito, emitindo juízos a partir de um ambiente seguro, próspero e capitalista. Não se trata de crime, nem de hipocrisia vulgar — trata-se de mediação.
Wagner Moura não é mais Nascimento. É quem administra o personagem, lucra com ele e condena quem ainda precisa dele. Eis, portanto, o sentido do título: Wagner Moura, o Cafetão Nascimento.
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