Há povos que usam a língua como uma ferramenta. Outros, como um adorno cultural. O alemão, não: o alemão usa a língua como sistema operacional, com manual, redundância, fail-safe e auditoria embutida.
Comecemos pelo inocente artigo definido. Em inglês, ele atende por THE. Uma palavra. Um botão. Funciona sempre. É quase suspeito. O inglês olha para o mundo e diz: “É aquilo ali. Vamos em frente.” Nenhuma pergunta adicional, nenhum formulário, nenhum anexo.
O alemão olha para o mesmo objeto e responde:
— Moment bitte. Antes de chamá-lo de “the”, precisamos saber o que ele é, onde está, o que faz na frase, quem manda nele e se já foi devidamente classificado.
Assim nasce o festival: der, die, das, den, dem, des — uma constelação de pequenas palavras cujo único propósito é impedir que alguém, em algum momento da história, interprete mal a função sintática de uma cadeira.
Sim, cadeira. Porque no alemão a cadeira (der Stuhl) é masculina. A menina (das Mädchen) é neutra. E o sol (die Sonne) é feminino. Não pergunte por quê. A resposta provavelmente envolverá um tratado do século XVIII, três filósofos e uma tabela.
O lema não oficial da língua poderia ser tranquilamente gravado em bronze:
- Se é complicado, então funciona.
Oder...
- Se é simples demais, algo está errado.
Enquanto o português brasileiro decide se usa artigo “dependendo do clima emocional do falante”, e o francês jamais deixa um substantivo sair de casa sem estar bem vestido (le, la, les), o alemão vai além: ele documenta o caminho inteiro da frase, como se cada oração pudesse ser auditada no futuro.
No alemão, não basta saber quem é o sujeito. É preciso saber em que caso ele se encontra existencialmente naquele exato momento. Ele está agindo? Sofrendo? Recebendo algo? Pertence a alguém? Cada situação exige um artigo diferente, porque ambiguidade é vista como falha de engenharia.
É a língua que olha para o caos da comunicação humana e diz:
— “Não confio.”
Porque, convenhamos, uma frase em alemão pode cair de um prédio e ainda assim ser remontada no chão, graças aos artigos, casos, declinações e placas de sinalização espalhados ao longo do texto. Nada depende da intuição. Tudo depende da estrutura. É menos poesia, mais engenharia civil linguística.
“Warum vereinfachen?”, perguntam eles, com razão. Simplificar é bonito, mas complicar corretamente é robusto.
No fim, o alemão não quer soar elegante como o francês, nem prático como o inglês, nem caloroso como o português. Ele quer uma coisa só: funcionar em qualquer cenário, inclusive sob estresse, ruído e má-fé interpretativa.
E isso, gostemos ou não, é profundamente alemão.
Porque se até o “the” precisa de seis versões e quatro casos gramaticais…
imagine o resto.
Cá entre nós, se os artigos e pronomes fossem minimamente mais bem definidos — como na língua alemã, que não permite que o sujeito escape por entre preposições convenientes — o célebre “amigo do amigo do meu pai” e o igualmente etéreo “filho do rapaz”, essas figuras semi-ocultas da corrupção de Botocúndia, jamais teriam alcançado seus intentos — muito menos suas impunidades. Teriam sido obrigados, ao menos uma vez na vida, a existir como sujeitos definidos, com nome, sobrenome e responsabilidade.
O problema é que, quando o sujeito finalmente surge, ele não vem sozinho: vem escoltado pelos artigos definidos certos. A dona, o contrato, da empresa, do Estado. Dona Vivi e seu contrato de 129 milhões que o digam. Em Botocúndia, o indefinido serve para ocultar... .e o definido serve para blindar. A gramática não acusa — absolve.