Há uma pergunta que insiste em sobreviver, apesar de todos os seminários, mesas-redondas, fóruns internacionais e powerpoints humanistas: se a democracia precisa de força para existir, mas a força foi moralmente destruída, o que sobra no lugar?
A esquerda brasileira, ao longo de décadas, parece ter respondido a essa pergunta de maneira curiosa — quando não tragicômica. Demonizou as Forças Armadas nacionais a tal ponto que o simples fato de um militar vestir farda virou, para parte da sociedade, um indício moral. Não importa o indivíduo, a biografia ou o contexto: o uniforme basta. A força legítima do Estado foi convertida em pecado original.
Mas aqui começa a ironia: a democracia nunca foi um regime pacifista. Nunca foi. Ela nasce armada, vive armada e só sobrevive porque existe alguém disposto a defendê-la quando o diálogo vira caricatura. O problema não é a força. O problema é quem pode exercê-la — e contra quem.
A esquerda brasileira resolveu esse dilema com uma elegância peculiar: repudia a força quando ela é institucional, nacional e disciplinada; tolera — ou romantiza — a força quando ela é difusa, estrangeira, irregular ou terrorista. É a força errada no lugar certo... e a força certa no lugar errado.
Durante décadas, militares brasileiros foram apresentados como crápulas históricas, enquanto guerrilheiros armados que assaltavam bancos, sequestravam diplomatas e explodiam bombas viraram personagens de memória seletiva, sempre descritos como “jovens idealistas”. A violência não era o problema. O problema era quem venceu.
E como toda derrota mal digerida, ela foi exportada.
Lula se encantou com Gaddafi — um ditador folclórico, excêntrico, sanguinário, mas útil como símbolo antiocidental. Dilma, herdeira direta da mística revolucionária, achou razoável sugerir diálogo com o ISIS, como se decapitadores em série estivessem apenas aguardando uma boa conversa e um café orgânico para rever seus métodos. Maduro foi defendido até o último fio de bigode, até que o desastre humanitário ficou grande demais para caber no discurso.
Tudo em nome do diálogo. Sempre o diálogo. O diálogo com quem nunca dialogou com ninguém.
E aqui surge a pergunta incômoda que ninguém quer responder:
Se a força democrática foi desmoralizada, qual é a força substituta aceitável para a esquerda?
A resposta implícita é perturbadora: qualquer força que não lembre o Estado nacional burguês. Pode ser milícia ideológica, guerrilha internacional, grupo armado “de resistência”, terrorista com bom storytelling. Desde que não vista farda oficial, desde que não fale em lei, desde que não imponha ordem — está perdoado.
É nesse ponto que o velho jargão ressurge, meio mofado, meio patético:
“A luta continua, companheiro.”
- Continua contra quem?
- Com quais meios?
- E, sobretudo, com quais aliados?
Porque, observando a história recente, a luta parece continuar sempre nos piores palcos, com os piores atores e pelos motivos mais confusos. A esquerda não escolhe campos de batalha onde a democracia possa vencer. Escolhe campos onde o caos garante que ninguém vença de verdade. Onde o conflito nunca termina. Onde a violência nunca precisa ser explicada — apenas contextualizada.
É a democracia como promessa eterna, nunca como entrega. Um regime que vive dizendo que está “em construção”, enquanto tolera quem dinamita qualquer obra possível.
A força, nessa visão, não deve proteger cidadãos, eleições ou instituições. Ela deve manter viva a narrativa. E se, para isso, for preciso fechar os olhos para células terroristas em fronteiras porosas, relativizar grupos como Hamas e Hezbollah ou fingir surpresa quando o monstro sai do controle — que seja. Afinal, reconhecer o erro seria admitir limites. E limites são intoleráveis para quem vive de luta permanente.
No fundo, o projeto é simples: uma democracia sem fim, porque nunca chega; uma batalha eterna, porque nunca pode ser vencida. Não se trata de pacifismo, mas de dependência do conflito. A paz encerraria o discurso. A ordem revelaria o vazio.
Talvez por isso a esquerda brasileira tema tanto a força legítima: não porque ela oprima, mas porque ela resolve. E resolver conflitos é perigosíssimo para quem vive deles.
Enquanto isso, o cidadão comum observa, perplexo, um regime que diz defender a democracia, mas flerta com seus inimigos; que condena a violência, mas escolhe mal quem a pratica; que fala em diálogo, mas nunca aceita o resultado quando ele não lhe convém.
A luta continua, sim.
Mas talvez não porque seja necessária — e sim porque sem ela, o discurso acaba.
E, para alguns, isso seria o verdadeiro fim da história.