Toda temporada é a mesma coisa: basta uma praia ficar lotada que surge alguém para decretar, com entusiasmo suspeito, que “a economia brasileira está reagindo”.
Pois bem. Se isso fosse verdade, o esgoto não estaria tentando fugir para o mar em Itapema, nem Tramandaí estaria vivendo um verão digno de estudo demográfico.
Vamos com calma — e com lógica.
Eu mesmo costumo ir só até onde o dinheiro me leva.
Isso não é ideologia. É contabilidade doméstica.
E é exatamente isso que explica o chamado “boom” de Itapema (SC) e Tramandaí (RS).
Calor, bolso curto e deslocamento interno
Quando o calor aperta, o brasileiro precisa se refrescar em algum lugar.
Quando o dinheiro está curto, esse lugar precisa ser perto, viável e socialmente possível.
Isso não é turismo clássico.
É êxodo interno de lazer.
O turista com dinheiro:
• compra passagem aérea,
• escolhe hotel,
• vai para Florianópolis bem localizada, Torres ou direto para o Nordeste.
O brasileiro com orçamento limitado faz outra conta:
• quanto dá para gastar com gasolina,
• quantas pessoas cabem no mesmo aluguel,
• e até onde dá para ir sem ser expulso do ambiente.
Tramandaí: a praia que cabe no tanque
O “boom” de Tramandaí não é mistério econômico. É geografia aplicada ao bolso.
A cidade fica a cerca de 120 km de Porto Alegre.
Dá para ir de carro.
Dá para voltar no mesmo dia.
Dá para improvisar.
Nos fins de semana de verão, a população multiplica várias vezes, algo amplamente noticiado nas últimas semanas. Isso não significa prosperidade. Significa proximidade.
O gaúcho com dinheiro não vai a Tramandaí.
Vai a Torres. Vai a Santa Catarina. Vai ao Nordeste.
Tramandaí é o destino de quem pensa:
“Dá pra ir até ali. Mais longe não dá.”
E isso é racional, não vergonhoso.
Itapema: não é barata — é possível
Aqui entra o ponto mais mal-entendido.
Itapema não é uma praia barata.
Não tem quiosques populares nem preços camaradas. Isso é fato.
O que Itapema tem é algo mais sutil — e decisivo:

Um ambiente percebido como mais tolerante à realidade do brasileiro médio.
Importante deixar claro, para não romantizar:
• Itapema tem regras,
• proibiu caixas de som na orla,
• multa e apreende equipamentos,
• tenta organizar o espaço público.
Ou seja: não é terra sem lei.
Mas, comparada a Balneário Camboriú — hoje altamente policiada, normatizada e socialmente seletiva —, Itapema ainda é vista como mais permeável à presença de grupos, famílias grandes, cooler, farofa discreta e improviso logístico.
O brasileiro com dinheiro curto só vai onde se sente aceito.
Não basta ser perto. Precisa ser possível existir ali.
Quando o esgoto vira manchete
E aqui a narrativa do “sucesso econômico” cai por terra.
Itapema virou notícia porque o sistema de esgoto não deu conta do aumento abrupto da população flutuante. Não foi boato, nem exagero: foi colapso de infraestrutura urbana. Isso não é sinal de prosperidade.
É sinal de:
• crescimento desordenado,
• planejamento urbano insuficiente,
• e pressão extrema sobre serviços públicos.
Praia cheia + esgoto colapsando =

não é milagre econômico

é diagnóstico técnico
O Nordeste e o “berreiro” tardio
Outro fenômeno curioso ajuda a entender tudo isso.
Por que ninguém reclamava antes dos preços absurdos das barracas no Nordeste?
Porque só ia rico. (Ou uma classe média remediada, que hoje está espremida no Tupperware da farofa.)
Os preços sempre foram altos — muitas vezes abusivos e extorsivos.
A diferença é que o público tinha renda para pagar sem questionar.
Quando mais brasileiros passaram a ir, com orçamento apertado, veio o choque:
• sentaram,
• pediram uma água,
• viram o preço,
• e entenderam que aquela praia não foi pensada para eles.
O berreiro não começou porque os preços subiram.
Começou porque o público mudou.
O que tudo isso revela
Não há boom do turismo.
Há adaptação coletiva à restrição econômica.
O brasileiro não está viajando mais. Ele está viajando:
• mais perto,
• com menos dinheiro,
• mais dependente de infraestrutura pública,
• e escolhendo destinos onde não será expulso socialmente.
E quando todo mundo faz isso ao mesmo tempo, a cidade sente — e o esgoto confirma.
Conclusão: a verdade que não cabe no discurso oficial
Itapema e Tramandaí cheias não significam:
• crescimento econômico,
• retomada do poder de compra,
• nem sucesso estrutural.
O calor chegou, o bolso decidiu e o povo foi até onde deu.
E pobres dos prefeitos, que precisam administrar:
• população multiplicada,
• orçamento fixo,
• infraestrutura limitada,
• e ainda vender isso como vitória.
Porque quando o cano estoura, não há narrativa que segure.