
Pode-se dizer muita coisa a respeito de Sílvio Santos, menos que ele era um cara de sorte. Talvez a única sorte que pudesse ser atribuída a ele era seu talento nato como apresentador, negociante e empresário. De camelô vendendo canetas nas ruas até chegar a dono do SBT, o segundo maior canal de televisão do Brasil, nada veio por herança. Tudo foi conquistado com muito trabalho, muita dedicação, muita visão de negócios e, principalmente, foco no que tornava tudo possível: o público. Sílvio Santos conhecia seu público.
Desde que me entendo por gente, enquanto minha avó materna teve saúde, a televisão ficava ligada no programa Sílvio Santos, do começo ao fim. E ai de quem tentasse mudar de canal. Ela comprava carnê do Baú da Felicidade, Telesena e ficava feliz quando trocava seu carnê por uma bateria de panelas, é assim que se falava antigamente, bateria de panelas. Como ela, milhões de pessoas faziam o mesmo. Elas confiavam em Sílvio Santos. Admiravam. Idolatravam. Domingo sem Sílvio Santos não era domingo.
Silvio Santos não era uma figura unânime, mas é inegável o respeito que muitos têm por sua história. Embora diversos profissionais que passaram por seus programas hoje relatem bastidores da convivência com ele, poucas acusações realmente graves surgiram ao longo do tempo. A maioria expressa gratidão e afeição, e casos como o de Rachel Sheherazade — que acabou derrotada na Justiça — são exceções. Há também depoimentos de sua filha Silvia Abravanel, mencionando broncas e xingamentos ao vivo, e de Márcia Goldschmidt, que descreveu um ambiente pesado nos bastidores, reforçando a imagem de um chefe exigente e, por vezes, ríspido.
Mesmo assim, não há qualquer acusação de corrupção ou desonestidade que tenha prosperado. Após sua morte, diversos podcasts ouviram pessoas muito próximas a ele, e nenhum trouxe revelações capazes de comprometer sua reputação. A imagem que permanece é a de um empresário centralizador e rigoroso, envolvido em uma disputa trabalhista que acabou vencendo, reforçando a percepção de que Silvio Santos não topava qualquer coisa, muito menos usar o SBT para enganar suas “colegas de auditório”.
O evento de lançamento do canal SBT News deve ter feito Sílvio Santos se revirar no caixão. Não pela presença das autoridades que lá estiveram, o que não deixa de revelar o prestígio e a importância que o SBT tem. Mas por permitir que o evento fosse feito de palanque para enganar o povo, o público que ele sempre colocou em primeiro lugar. E só pode haver uma explicação para o fato: “o prêmio é em barras de ouro que valem mais do que dinheiro!”, frase que se tornou um de seus bordões.
Casado com Patrícia Abravanel, Fábio Faria — ex-deputado federal e ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro — tornou-se, após deixar o cargo, executivo da Tesla e da Starlink no Brasil, assumindo o papel de principal interlocutor de Elon Musk com o governo. Mesmo visto como adversário político por setores da esquerda, acabou sendo tratado por Lula como intermediário indispensável, passando a frequentar o Palácio do Planalto a partir de 2023 para tratar de interesses empresariais. Embora parte do PT rejeite sua atuação como ponte com Musk, a ala pragmática aceita sua presença, dado que o empresário não negocia diretamente com o governo sem figuras de confiança.
Fábio Faria é filho do ex-governador do Rio Grande do Norte Robinson Faria, cuja relação com o cenário político nacional sempre foi marcada por pragmatismo. Após a vitória de Lula em 2022, surgiram relatos de que pai e filho avaliaram migrar para um partido alinhado ao governo para reposicionamento estratégico, movimento interpretado mais como cálculo político que afinidade ideológica. Em 2025, Robinson deixou o PL e se filiou ao PP, enquanto Fábio já havia deixado o PSD em 2022 para também ingressar no PP. Dito isto, não é difícil imaginar que a presença de tantos convidados ilustres tenha sido intermediada por quem tem interesses no governo, da mesma forma que o governo, há 10 meses da eleição, tem extremo interesse nas “colegas de auditório” de Sílvio Santos.
A presença da cúpula do governo federal, ainda que não se possa dizer que seria comum, também não causaria estranhamento, dada a importância do SBT no cenário nacional. Da mesma forma, também estavam lá o governador de São Paulo e o prefeito da capital paulistana. O que causou profundo estranhamento foi a presença do ministro Alexandre de Moraes. Mais ainda, o espaço dado a ele. O que deveria ser um evento comercial tornou-se um evento político, no qual o SBT, direta e indiretamente, tomou partido de um espectro político, o que Sílvio Santos sabia muito bem não fazer.
Resta aguardar o comportamento do jornalismo da emissora no novo SBT News. Além da tendência, se existir, a ser observada, vale também observar as verbas publicitárias do governo que serão destinadas ao canal em 2026.
Não, Sílvio. Não é mais hora de alegria, de sorrir ou de cantar! Você não vem mais aí. E suas filhas fecharam as portas da esperança.
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