
Que psicopatas e autoritários não são dados à clemência e misericórdia, não é novidade para ninguém. Pelo contrário, se regozijam com o sofrimento alheio, especialmente quando o infligem com certo grau de sadismo. Justificam-se com o uso de alguma causa nobre, quando, de fato, sentem imenso prazer na dor de seus perseguidos. Mas há tipos que podem ser piores. São os covardes e omissos, aqueles que, por total inércia, tanto podem evitar o sofrimento das pessoas vítimas dos psicopatas e autoritários, como podem também interromper as ações de psicopatia e autoritarismo.
O PL da Anistia, cujo trâmite iniciou-se em dezembro de 2021, deveria ter sido uma bandeira prioritária do Congresso Nacional, mas até hoje não passou de uma ferramenta de marketing de deputados federais e senadores que, desde 2019, no início do governo Jair Bolsonaro e da sanha autoritária do STF, optaram pela omissão, pela covardia, além do revanchismo e do oportunismo regado a emendas parlamentares e cargos nos diversos escalões do governo. Tratar a leniência dos parlamentares como dificuldade de negociar politicamente o PL da Anistia é esconder a incompetência somada à falta de vontade de fazer justiça para quem merece.
Enquanto aviões da FAB cruzam os céus do Brasil fornecendo mordomias a autoridades que têm medo de encarar passageiros em um voo comercial, advogados não conseguem cruzar as barreiras autoritárias e burocráticas para acessar os autos de processos que condenam inocentes a duríssimas penas de prisão que não são impostas a assassinos, traficantes, pedófilos e estupradores. Os poderosos que se condoem com pouco mais de uma centena de bandidos mortos em uma ação policial são os mesmos que, por vingança a um espectro político, exigem que mais de duas mil pessoas sirvam de exemplo para a imposição do medo a toda uma sociedade.

A imprensa militante e os institutos de pesquisa tratam de dar acabamento à narrativa autoritária, reforçando e invertendo os fatos, fabricando ou falseando dados, em troca de verbas publicitárias e favorecimentos, mantendo-se fiéis a um processo ideológico de vingança no qual a justiça e as leis passaram a ser meros detalhes, ignorados até mesmo por advogados e juristas que, por medo ou oportunismo, apoiam ou ficam calados vendo a Constituição Federal e os códigos processuais rasgados por quem, por falta de saber jurídico e compromisso com a importância do cargo que exerce, nem deveria estar onde está.
Se existem dois grandes culpados por tudo o que está acontecendo no Brasil, são eles o Congresso Nacional e o próprio povo brasileiro. Deputados federais e senadores, em grande parte, envolvidos em crimes cujos processos estão nas mãos do alto judiciário, pelos quais são frequentemente chantageados e coagidos a não agir em troca de suas liberdades. O povo, muitos por medo, mas uma grande parte por total ignorância e falta de interesse em temas que consideram não os atingir, simplesmente não entendem que o alcance do que está sendo feito mais cedo ou mais tarde vai atingi-los também – além de serem vítimas da verdadeira desinformação que a imprensa vendida entrega a eles diariamente.
Dificilmente o PL da Anistia será votado ainda em 2025. Ainda que fosse, teria que passar pela Câmara dos Deputados, depois pelo Senado Federal para ir à sanção de Lula, que, quase certo, vetará, fazendo que voltasse para o Congresso Nacional para que o veto fosse derrubado nas duas casas legislativas, processo que, inevitavelmente, seria jogado para 2026, quando, então, por oportunismo eleitoral, pudesse ser apreciado. Isto significa que inocentes passarão Natal e Ano Novo na cadeia, em prisão domiciliar, enquanto as autoridades autoritárias, os verdadeiros criminosos, passarão as festas de fim de ano com seus familiares e amigos de maneira nababesca. Não digo com a consciência tranquila porque psicopatas e autoritários não têm consciência.
O Brasil não pode mais conviver com o nível de injustiça, psicopatia e autoritarismo que impera desde 2019 - ou, penso eu, desde 2017, quando certo ministro tomou posse na cadeira do falecido Teori Zavascki. São anos de perseguição política pelo judiciário, a políticos e cidadãos comuns, impunidade para corruptos, traficantes, assaltantes, assassinos, estupradores e pedófilos, favorecimentos a empresas e empresários que desviam verbas públicas e roubam aposentados, criação e aumentos de impostos, gastança desenfreada e uma casta que vive protegida por escoltas armadas e carros blindados, num país que só regride politica e financeiramente sem que surja uma luz no fim do túnel.

E não se iluda quem pensa que apenas eleições e um senado de direita vão resolver o problema. É impensável imaginar que haja uma saída institucional para o Brasil com os personagens que ocupam as mais altas posições nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Não acredite também que uma revolução armada ou greves gerais seriam soluções. A principal revolução que precisamos é a da mentalidade do povo brasileiro, o que só se faz com uma mudança de cultura.
Falta também que a classe média, historicamente a promotora de mudanças nas sociedades, geradora de riqueza e empregos por meio de pequenos e médios negócios, se disponha a participar do debate público e comece a se recusar a financiar este maldito sistema que amedronta e escraviza os brasileiros. Temos, ainda, os grandes empresários, que se beneficiam da corrupção, do favorecimento, que têm suas dívidas bilionárias perdoadas pelo governo e pelo judiciário quando são flagrados em ilícitos pelos quais teriam que pagar multas altíssimas ou mesmo irem para a cadeia. São eles os grandes investidores em campanhas eleitorais.
Por fim, o trato do PL da Anistia pelos deputados federais e senadores é o maior símbolo da decadência institucional e moral dos poderes da república, escancarando como o oportunismo, a omissão, a covardia, a psicopatia e o autoritarismo destroem uma sociedade, o presente e, principalmente, por gerações, o futuro de uma nação repleta de riquezas, às custas do sofrimento e da manutenção da pobreza, financeira e intelectual, em benefício de poucos.
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