
Começo pelo óbvio: é impossível que o crime tenha se organizado da maneira como acontece no Brasil sem a conivência – e a cumplicidade voluntária ou involuntária – das estruturas de poder, ou seja, executivo, legislativo e judiciário. O que torna tudo isso possível, em nome da ideologia de esquerda, é que há tempos nosso país abriu mão da ordem.
O PT venceu 5 das 6 eleições presidenciais disputadas nos 22 anos. Durante todo este período, houve momentos em que também conseguiu governar diversos estados e prefeituras, em especial nos estados do nordeste, onde, não coincidentemente, se encontram as 10 cidades mais violentas do Brasil, segundo o Anuário de Segurança Pública e dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Mas o foco é o Rio de Janeiro, cujo governador não é de esquerda.

Nestes 22 anos, em apenas duas ocasiões houve tentativa de se colocar a ordem como prioridade nacional: a Operação Lava Jato e os 4 anos do mandato de Jair Bolsonaro. E sabemos no que deu. Todos os envolvidos foram criminalizados. A Lava Jato foi inteiramente jogada na lata do lixo. Sérgio Moro, apesar de continuar senador, foi (e ainda é) perseguido pelo judiciário. Deltan Dallagnol teve seu mandato de deputado federal cassado pela justiça.
Bolsonaro encontra-se condenado e preso dentro de sua própria casa e seus principais aliados foram condenados à prisão, por um crime que não existiu. Enquanto isso, só o STJ concedeu mais de 9000 habeas corpus para traficantes em 2024, e mais de 1000 pessoas foram condenadas a até 17 anos de prisão, acusadas de um golpe de estado que nunca sequer foi planejado ou tentado.
Esta é a pergunta mais relevante já há algum tempo, e a mais difícil de responder, ainda que tenhamos uma percepção clara de que é o judiciário que, desde 2019, dá as cartas no jogo do poder. A dúvida é se o judiciário manda ou obedece. O mesmo podemos dizer em relação ao poder executivo depois que Lula voltou ao poder: ele manda ou obedece? Já sobre o legislativo federal, o mais legítimo representante do povo, só obedece, seja por “rabo preso”, por ideologia ou por oportunismo. No fim das contas, todos representam apenas seus próprios interesses – o que pode significar a necessidade de obedecer a algum ente não constitucional.
É impossível não destacarmos o papel exercido por Alexandre de Moraes em todos estes acontecimentos, não somente pelo que ele fez e continua fazendo, mas, também, pelo seu histórico profissional, quando, ainda advogado, defendeu uma empresa de transporte ligada a uma facção criminosa de São Paulo. Curiosamente, veio a ser secretário municipal de transportes da capital paulista, depois secretário de segurança do estado de São Paulo, o que impulsionou sua carreira meteórica como ministro da justiça, na qual mal esquentou a cadeira, e posteriormente ministro do Supremo Tribunal Federal.
Também ainda não havia esquentado a cadeira amarela, para a qual foi guindado por Michel Temer, quando se tornou o protagonista da mais alta corte do judiciário brasileiro. Se de fato manda ou obedece, desde que lá chegou, praticamente tudo passa por ele. Quando não é, ilegalmente, destacado de ofício para relatar um determinado processo, como o inquérito do fim do mundo, irregularmente aberto por Dias Toffoli, o equipamento que faz o sorteio aleatório para distribuir os processos entre os juízes se comporta como uma roleta viciada de cassinos clandestinos, sempre caindo nele.
Não estaria errado se, ao invés de “Ordem e Progresso”, encontrássemos a frase acima na bandeira nacional. É isso que somos. Um país em total desordem com foco no progressismo. Os progressistas enxergam seu papel como “empurrar a história para frente”, corrigindo o que interpretam como injustiças estruturais criadas pelos modelos tradicionais, econômicos e culturais: transformação contínua da sociedade; expansão de direitos sociais e civis; intervenção ativa do Estado para reduzir desigualdades; valorização da diversidade e defesa de minorias; revisão constante de normas culturais e estruturas de poder; promoção de justiça social como eixo central do projeto político.
Traduzindo em expressões mais diretas: na economia – Estado forte, regulação ampla, redistribuição, tributação progressiva; nos costumes – mudança cultural ativa, combate a padrões “conservadores”; na sociedade – defesa de minorias, inclusão forçada se necessário; na política – projetos coletivistas, participação social organizada; na educação – ferramenta para transformação social e cultural. O “progresso” dos progressistas muitas vezes implica engenharia social, com tendência à expansão infinita do Estado, frequente intolerância à dissidência ideológica, o conceito de “justiça social” se sobrepõe às liberdades individuais e as mudanças culturais forçadas geram descolamento da realidade social.
Junte a tudo isso um pacto federativo e um pacto fiscal que tiram a autonomia dos estados e centralizam os poderes e a arrecadação na União, uma lei eleitoral que não elege os mais bem votados nas eleições proporcionais, um sistema de votação que não é transparente e gera desconfiança nos eleitores, um Constituição Federal de viés socialista que privilegia mais direitos do que deveres vigorando em um sistema presidencialista que elege cria uma presidência sem poderes, um povo que propositalmente não recebe educação adequada que o qualifique como cidadão, e um pacote de assistencialismo que não promove os cidadãos e cria uma legião de dependentes do Estado que trocam seus votos pela manutenção do mínimo que recebem dele. E, como cereja do bolo, instituições desacreditadas e uma nação descrente de seu futuro.
Então, repito: é impossível que o crime tenha se organizado da maneira como acontece no Brasil sem a conivência – e a cumplicidade voluntária ou involuntária – das estruturas de poder, executivo, legislativo e judiciário, porque o modelo do nosso Estado faliu, nossa república faliu. Toda a estrutura de poder, em todos os níveis, federal, estadual e municipal, está contaminada pela proposital desorganização, o que proporciona a existência de uma casta privilegiada de pessoas que domina o país através da distribuição de “esmolas” e do medo, o que justifica o não combate ao narcoterrorismo que domina nossa nação e as ações autoritárias de um judiciário que não sabemos se realmente manda, obedece ou a quem obedece.
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