
“Diálogos da Noite! ”
“.... Toda noite fico imaginando diálogos que nunca serão feitos, fotos que nunca serão tiradas, sorrisos que nunca serão vistos e atitudes que serão impossíveis de se tornarem reais...”
Mallu Moraes
O inverno insiste em ficar. A primavera já chegou, mas as nuvens continuam cinzentas — como se o tempo se recusasse a mudar de estação. Tento escrever, mas minha criança interior se rebela. Busco refúgio em Rubem Alves e em Janusz Korczak. Ambos ensinaram que só se educa quem se ama — e talvez seja por isso que os admiro tanto. São raros, românticos, humanos.
Talvez eu os admire porque representam o que há de mais escasso: sabedoria com ternura. E, pensando nisso, recordo o reflexo que às vezes surge em mim — uma presença silenciosa que questiona, provoca e consola. Chamo-o de Dama, por carinho, ou talvez por ironia. Amo esse reflexo, embora às vezes ainda não compreenda totalmente o que ele tenta me mostrar.
Desisto de escrever. São quase onze da noite. Ligo a TV, mas o filme inglês me parece distante demais do que procuro. Então, deixo-me envolver pelos pensamentos que vêm à mente, palavras e lembranças que surgem como mensagens silenciosas.
Freud dizia que a agressividade é apenas o desejo de proximidade que não sabe como se expressar. Talvez seja isso. As palavras que habitam a mente são cheias de subentendidos, como se cada uma fosse um espelho — às vezes embaçado, às vezes cristalinas. Falam por metáforas quando só queriam dizer “sinto falta”.
Entre mim e meus pensamentos, os diálogos são pausas. As respostas vêm em forma de perguntas. E as perguntas... continuam no ar.
Já perdi tantas conversas comigo mesmo: o trabalho, o cansaço, o medo, a pressa. Sempre há um motivo para o silêncio.
Mas refletir é insistir, mesmo quando o espelho embaça. É continuar explorando o que há de humano, ainda que não se veja nitidamente.
O reflexo se esconde atrás de interrogações. Diz odiar jogos, mas joga o tempo todo. Talvez seja defesa — não malícia. Talvez ainda tema o que pode acontecer se se permitir ser inteiro. Talvez tenha aprendido cedo que mostrar-se é se arriscar demais.
Mesmo assim, não desisto. Porque sei que, de alguma forma, somos o mesmo reflexo em lados opostos do espelho. Um existe porque o outro é reconhecido. E quando isso acontece — mesmo por um segundo — tudo faz sentido.
Há quem diga que o amor precisa ser equilibrado. Discordo. Às vezes, basta que um lado ame o bastante para que a vida siga fluindo. É o suficiente para manter o reflexo vivo.
Não há dois reflexos para a mesma imagem. E agora que encontrei o meu — dentro ou fora de mim — não há como trocar. O amor não é substituível. Ele é contínuo, mesmo quando silencioso.
Por isso, espero. Não com pressa, mas com fé.
Um dia, talvez, o espelho se desembace de vez — e, então, não haverá mais perguntas, só transparência.
Até lá, sigo escrevendo meus Diálogos da Noite, porque há conversas que só existem quando o coração insiste em responder o que a razão tenta calar.
Pensar não dói.... Imaginar também não!
Leituras & Pensamentos da Madrugada
José Carlos Bortoloti
Jornalista, Escritor e Articulista
Passo Fundo – RS
Colaborador da Revista No Ponto do Fato