
A comparação é incômoda, mas inevitável. No Québec dos anos 1960 e 70, um pequeno grupo de criminosos armados de slogans marxistas e simpatias soviéticas decidiu aterrorizar a sociedade: explodiram bombas, assaltaram bancos, sequestraram diplomatas, mataram um ministro. Não havia nobreza em seus atos, apenas violência e arrogância travestidas de ideologia. Eram terroristas, não libertadores. O Canadá respondeu com tropas nas ruas, com a suspensão temporária de liberdades pela War Measures Act, com prisões em massa. Foi duro, mas dentro de um enquadramento que preservou a dignidade do Estado. O resultado: a guerrilha foi desmantelada, seus remanescentes foram para o exílio ou definharam na obscuridade. O separatismo, que poderia ter se degenerado em guerra civil, foi empurrado para o único lugar legítimo: as urnas. O crime não foi romantizado, mas contido.
No Brasil, no mesmo período, a história seguiu outro curso. Também aqui, criminosos armados de panfletos ideológicos e armas de fogo decidiram desafiar a ordem: assaltaram bancos, sequestraram embaixadores, atacaram quartéis. Não havia heróis, mas delinquentes que confundiram violência com transformação. O Estado, porém, escolheu responder ao crime com crimes ainda maiores: câmaras de tortura, choques elétricos, mutilações, desaparecimentos. Não foi justiça, foi barbárie. Não foi civilização, foi regressão medieval. Ao contrário do Canadá, que neutralizou seus terroristas sem transformar-se em algo pior do que eles, o Brasil permitiu que a máquina estatal se corrompesse ao ponto de institucionalizar a tortura como política.
E o mais grave: a “solução” brasileira não resolveu nada. Com a anistia ampla, os torturadores foram protegidos, e muitos dos guerrilheiros voltaram — não como criminosos que pagaram por seus atos, mas como protagonistas da política nacional. Zé Dirceu, já condenado depois pela Justiça por corrupção. Dilma Rousseff, que emergiu de seu grupo para sentar-se na cadeira da Presidência. Lula, que na época já negociava com militares e depois se tornou o símbolo máximo de um sistema onde os papéis de vítima e algoz se misturam. O país não puniu devidamente nem os criminosos de ontem nem os de dentro do Estado. Preferiu o esquecimento conveniente, a impunidade compartilhada.
Eis o contraste. O Canadá enfrentou seus criminosos, desarmou-os, retirou-lhes o brilho e deixou-os morrer de velhice e irrelevância. O Brasil, incapaz de uma solução civilizada, perpetuou o problema. Ontem a tortura era física; hoje é judicial, burocrática, digital. Os métodos mudaram, mas o espírito de seletividade e vingança permanece. O sistema não aprendeu a lidar com a criminalidade — nem a insurgente, nem a institucional. Aprendeu apenas a reinventar a tortura em novas formas.
E o presente confirma o passado. Hoje, Bolsonaro e seu grupo pagam o preço da perseguição estatal. Não há clareza nas punições, não há transparência nos julgamentos, e sobra espaço para arbitrariedades. Há inocentes presos, há delações já confessadas por assessores próximos de Moraes, como Tagliaferro, que expõem os abusos. A cada nova prisão sem fundamento sólido, o fantasma da tortura reaparece, agora vestido de legalidade formal. Mais uma vez, o Estado assume o papel de algoz, e a Justiça torna-se instrumento de intimidação.
Em outras palavras, o ciclo continua: ontem foram os guerrilheiros, hoje são os bolsonaristas. O Brasil insiste em não resolver seus problemas estruturais. E assim, a pergunta permanece: quem serão os próximos escolhidos, daqui a alguns anos, para serem triturados por esse sistema que nunca aprendeu a distinguir justiça de vingança?