
Como na obra de Jorge Amado (Dona Flor e Seus Dois Maridos), o Brasil vive mergulhado em uma dualidade cultural que reflete a essência de seu povo. Essa ambiguidade se manifesta hoje nas figuras de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, que refletem respectivamente, as personalidades de Vadinho e Teodoro, em uma dança complexa entre malandragem e ordem.

Lula, tal como Vadinho, é o sedutor carismático, um falante apaixonado e enraizado nas camadas populares, cuja energia remete ao boêmio, ao malandro e à exuberância do carnaval e da cervejinha. Como o primeiro marido de Flor, ele traz uma paixão avassaladora, uma ligação visceral com as emoções mais supérfluas do povo, marcada por políticas de inclusão e uma festividade social que ressoa na cultura brasileira. Contudo, essa intensidade vem acompanhada de instabilidade — escândalos, suspeitas de conexões criminosas, traições políticas e uma vida desregrada que, à semelhança das aventuras de Vadinho, geram sofrimento, desafios e uma sensação de caos para Dona Flor (Brasil). Mesmo após 580 dias preso, Lula retorna como o espírito de Vadinho, reaparecendo na vida nacional com seu jeito irreverente, reacendendo a chama da sensualidade cultural e da esperança popular, mas também trazendo tormento e controvérsia.

Bolsonaro, por sua vez, encarna Teodoro, o oposto complementar. Como o farmacêutico metódico, sério e pudico, ele representa uma visão de ordem, segurança e desenvolvimento econômico que muitos brasileiros almejam em meio à turbulência. Sua importância reside na promessa de resgatar o país de um estado de desordem percebida, oferecendo uma estrutura sólida e uma liderança disciplinada que prioriza a estabilidade institucional e o crescimento econômico. Assim como Teodoro trouxe a Dona Flor um casamento estável e uma vida doméstica previsível, Bolsonaro busca impor um governo cerimonioso e com ênfase na segurança pública, na moralidade tradicional e na retomada de uma identidade nacional forte.
Essa estabilidade é crucial para setores da sociedade que anseiam por um freio à corrupção e à impunidade, funcionando como um pilar de confiança em tempos de crise. Seu papel é fundamental para aqueles que veem no rigor e na autoridade a chave para o progresso, oferecendo um contraponto essencial à desordem emocional e à improvisação que caracterizam o legado de Lula. No entanto, assim como Flor sente a falta da paixão avassaladora de Vadinho, o povo às vezes percebe em Bolsonaro a ausência da efervescência cultural e emocional que definem parte da alma brasileira, criando um vazio que alimenta a nostalgia por tempos mais pastoris.

A dualidade de Dona Flor espelha exatamente o conflito interno do Brasil: o desejo de abraçar a segurança, a disciplina e o desenvolvimento econômico que Teodoro/Bolsonaro oferece como um alicerce para o futuro, versus a saudade da exposição de sentimentos, da malandragem e da festividade que Vadinho/Lula simboliza, enraizada na cultura popular e no carnaval.
Dona Flor (povo) oscila entre a tentação do crime e da desordem — representados pela energia caótica e sedutora da vida de Vadinho — e a aspiração pela polícia, pela ordem e pelo controle que Teodoro personifica. Assim como Flor convive com ambos os maridos, o Brasil busca um equilíbrio impossível, dividido entre a estabilidade fria e a paixão desregrada, refletindo em sua história e política essa dança eterna entre dois amores irreconciliáveis.

A questão é que, diferentemente do Teodoro, Jair Bolsonaro é muito mais completo: ele representa ordem e estabilidade, mas também paixão e conexão emocional. Ao invés de tentar defender a dualidade, Dona Flor poderia encontrar em Teodoro o amor genuíno, que protege, que briga e que defende. E abandonar o fogo da paixão que, pode parecer atraente, mas só usurpa, escraviza e explora.
Sérgio Júnior