
Querido povo brasileiro — trabalhadores incansáveis, camelôs, motoristas, taxistas, mas também artistas, jornalistas, opositores políticos e cada coração que faz pulsar esta nação: venho com a alma exposta, por um instante de verdade. Estamos à beira do precipício, e só um mea-culpa sincero pode nos salvar do fogo que nós mesmos acendemos. Somos um povo que, por paixão ou descuido, adora dançar com as chamas — e agora sentimos o calor da ditadura nos queimarde novo.
Vivemos num pêndulo que nos define e nos aprisiona. Num momento, clamamos por ordem, sonhando com a paz social; no outro, exaltamos a rebeldia, celebramos o "sistema é phoda", com um certo orgulho dessa essência. Aplaudimos o rebelde e depois choramos quando o caos que ele traz nos engole. É uma dança que conhecemos de cor: do fervor à frustração, da esperança cega à decepção amarga. E, no fundo, sabemos que somos nós quem giramos essa roda.
Mas há um traço mais sombrio, que nos envergonha encarar: o prazer cruel de transformar a dor alheia em espetáculo. Rimos da tragédia do outro, apontamos o dedo enquanto alguém é humilhado, ou vítima de uma injustiça. Clézão, por exemplo, teve sua morte ridicularizada nas redes, "se tivessetrabalhando, nãoacontecia". Ou a prisão do deputado Daniel Silveira, condenado a quase nove anos por se expressar, mas o outro lado aplaude como se ele não sofreu o bastante. E o que dizer da condenação de Débora mãede 2 crianças, punida por uma pichação com batom?
Como legitimar algo assim, só porque é um adversário político?
E a prisão domiciliar de Bolsonaro, virou palco para quem aplaude a desgraça sem questionar a justiça. Esse riso não é inocente. É ele que alimenta a violência e a crueldade dos ditadores, destrói nossa empatia e nos impede de construir um projeto de país que tanto precisamos. Quando rimos do que queima o outro, esquecemos que o fogo, cedo ou tarde, vem nos buscar.
Em nossas terras, a rebeldia é hino, é identidade. Mas quando a instabilidade bate à porta, imploramos pela ordem que antes desprezamos. É essa contradição que nos prende: apoiamos quem desafia a lei com aplausos calorosos, só para preencher nosso ego e depois nos revoltamos quando a conta chega. E ela sempre chega.
Nossa máxima mea-culpa é essa: amamos o brilho da chama, mas também o grito de quem se queima. E, enquanto rimos, não percebemos que, quem colocou o fogo, quer queimar todos nós.
As revelações sobre Alexandre de Moraes — a Vaza Toga I e II e as recentes sanções ao Brasil — são um espelho cruel. Elas mostram o circo que nós mesmos montamos: a imprensa que fechou os olhos, os artistas que se calaram, os jornalistas que apoiam em silêncio, os opositores que acharam graça quando o fogo destruiu vidas do outro lado.
Agora, as manchetes mudam, como se quem hoje critica não tivesse aplaudido ontem. É um teatro de hipocrisia, onde a verdade vira piada e a justiça, um jogo.
Não é só ingenuidade. É cálculo. A dialética marxista que molda a “verdade” sabe bem disso: acusam de fake news enquanto as fabricam, gritam contra golpes enquanto os tramam. O Brasil virou um laboratório de contradições, onde somos, ao mesmo tempo, cristãos, democratas e, sem perceber, reféns de ideias que nos dividem. E as elites, que sabem disso, a usam para seus projetos de poder.

Eu sou a favor de lados, da oposição e da situação. É legítimo o posicionamento político divergente, mas a injustiça e a deslealdade, NÃO!
Nós tapamos os ouvidos e fingimos não ver que a burguesia tirou um criminoso da cadeia para colocá-lo no poder.
É hora de parar. De olhar nos olhos uns dos outros e admitir: nós erramos. Brincamos com o fogo e agora ele nos consome. Mas ainda há tempo. Podemos apaga-lo com verdade e com união.
Vamos anistiar, mas, acima de tudo, vamos mudar essa nossa percepção vingativa.
Pelo Brasil, por nós, pelas gerações que virão.
Que seja dado o primeiro passo para reconstruir o que ainda resta da nossa maravilhosa essência.
Sérgio Júnior