
Uma nação consegue sobreviver quando a corrupção se instala nos poderes executivo e legislativo. As leis, quando rigorosamente cumpridas, oferecem recursos para punir e afastar os corruptos por usurparem de seus cargos para benefício próprio ou do grupo a que pertencem ou representam. Mas quando a corrupção atinge também o poder judiciário, nenhuma nação sobrevive. Seria até ridículo imaginar que colocariam nas leis dispositivos de autopunição que seriam aplicados a si pelos agentes que praticaram algum tipo de corrupção.
Romper e corromper vêm da mesma raiz “–romper”, mas o prefixo "cor‑" muda totalmente o sentido. Romper significa partir, quebrar ou desfazer algo (físico, contratual ou até o início de um fenômeno). Exemplos: “romper contrato”, “rompeu a tempestade”. Já o significado de corromper traduz a ideia de estragar, adulterar ou perverter (tanto matéria e dados quanto pessoas e instituições), inclusive por suborno. Bons exemplos são “dados corrompidos”, “o poder corrompe”. Portanto, romper age sobre a integridade ou continuidade; corromper, sobre a qualidade moral, jurídica ou técnica.
O colapso de uma república ocorre quando se combinam o rompimento e a corrupção de suas instituições. De um lado, o romper desfaz a estrutura formal — quebra-se o sistema de freios e contrapesos, anulam‑se normas e procedimentos, como num executivo que emite decretos usurpando o Legislativo ou num Judiciário que passa por cima os outros poderes; de outro, o corromper mina a essência moral e funcional — os agentes públicos pervertem seu papel, o judiciário subverte as leis, e todos submetem suas decisões a interesses espúrios.; usam clientelismo, nepotismo e suborno para subverter o propósito original. É essa dupla dinâmica — desmantelamento das salvaguardas e degradação ética de quem deveria guardá-las — que provoca o verdadeiro colapso interno de uma república.
Implosões controladas, como vemos acontecer em grandes estruturas como edifícios e pontes, são processos meticulosos que fazem com que a estrutura desabe para dentro de si mesma, minimizando os impactos ao redor. Porém, quando não se tem controle sobre elas, os impactos costumam causar danos irreversíveis e muitas vítimas, interna e externamente. A ruína decorre de falhas, tensões ou contradições internas, fazendo com que algo, seja um sistema político, uma instituição ou um indivíduo, desabe sobre si mesmo.
É a autodestruição silenciosa, o caráter “invisível” ou “subterrâneo” do processo, em que o estrago não se vê de início, e vai corroendo as bases até o estouro. Este contexto reforça a noção de que as próprias forças que deveriam preservar a integridade passam a destruí-la de dentro. O “colapso interno” é a definição mais direta e técnica, pois traduz com precisão o sentido de implosão sem perder a carga simbólica de que a destruição provocada por forças internas.
A república brasileira rompeu com todos os pactos que deram origem a ela. Corrompeu todos os propósitos de sua existência quando passou a ser direcionada por ideologia e não pelo conceito que ela de fato significa a forma de governo em que a soberania emana do povo, que escolhe livremente seus representantes por eleições diretas e periódicas, com divisão equilibrada entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, em restrita obediência à Constituição.
Não somos meros observadores dos acontecimentos. Vivenciamos, como vítimas, a "implosão" do nosso modo de vida, da nossa democracia, da nossa nação. Somos diariamente atingidos pelos estilhaços da irresponsabilidade, da ganância, do desprezo pelas leis e pelos nossos direitos por quem deveria garanti-los e protegê-los; como consequência, punidos duplamente, quando nos manifestamos diante do espetáculo mórbido no qual a classe política e jurídica não “mata” apenas a si mesma, mas também as instituições as quais pertencem.
Somos, hoje, uma nação em conflito por força da polarização causada pelo rompimento e pela corrupção dos valores e princípios republicanos, substituídos por conceitos ideológicos, alianças espúrias, compadrio, corporativismo e autoproteção de um sistema que, desde a redemocratização do Brasil em 1985, substituiu nossa república sem que nos déssemos conta disso, e que, hoje, se abraça, apertadamente, às ditaduras e autocracias, importa e aplica seus modos de vidas na nossa sociedade, enquanto “arrota” palavras e expressões como democracia, soberania nacional e estado democrático de direito.
Encerro repetindo a frase final do meu último artigo:
“Ou agimos para construir algo diferente, ou seremos levados por quem está construindo no nosso lugar.”
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