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BRASIL, TERRA DE TODOS - MENOS DA JUSTIÇA

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Hermes Magnus
Por: Hermes Magnus
21/06/2025 às 10h59
BRASIL, TERRA DE TODOS - MENOS DA JUSTIÇA

Há quem diga, com um certo saudosismo seletivo, que o Brasil “até ontem” funcionava. É curioso. Essa expressão — até ontem — carrega uma melancolia quase romântica, como se estivéssemos falando de um tempo em que a justiça, ah!, essa deusa cega e imparcial, realmente reinava. Mas basta arranhar a superfície para perceber que esse “ontem” era, no fundo, um passado de brandura conivente, onde o colarinho branco flanava em liberdade e o pequeno delinquente era, no máximo, advertido com um tapinha na mão e um lanchinho pago pelo contribuinte.

Mas o que se propõe aqui não é a volta ao “ontem”. Não. O Brasil não precisa de uma justiça nostálgica, precisa de uma justiça implacável. Não uma justiça espetaculosa, inquisitorial, dessas que miram adversários políticos com mira telescópica e, ao mesmo tempo, deixam passar carregamentos de droga com a sutileza de um elefante usando pantufas. Justiça política é o fim da justiça — é só mais um instrumento do poder, e poder já temos em excesso, concentrado e adoentado.

O que nos falta, paradoxalmente, é rigor. Rigor equânime. Aquele que atinge o traficante internacional e o ladrão de galinha, sem distinção de favela ou de Faria Lima. Porque, convenhamos, essa romantização do “pequeno delito” é o embrião da catástrofe. O ladrão de galinha de hoje é o articulador de rachadinha de amanhã. Um dia furta um pacote de frango, no outro já está articulando uma emenda de relator. E depois? Depois vira ministro da Justiça.

E aqui entramos no palco da tragicomédia nacional: a audiência de custódia. Essa instituição moderna, progressista, humanitária — e, claro, hilariante. O policial entra com o meliante algemado, e sai algemado pela própria frustração, enquanto o réu vai embora rindo, com uma carteirinha de vítima do sistema e um voucher de Uber até a próxima oportunidade.

Essa justiça que aí está não é justiça. É um teatro de marionetes, onde os cordões são puxados ora por partidos, ora por grupos de interesse, ora por figuras togadas com sede de manchete. O povo? Ah, o povo… esse assiste tudo da plateia, pagando caro o ingresso com imposto e impunidade.

Não, meus caros, não queremos o retorno a uma justiça de “antes”. Porque o antes nunca existiu de fato — era só uma ilusão bem distribuída nos intervalos do Jornal Nacional. Queremos uma justiça de verdade. Uma justiça que seja surda a influências, cega às ideologias, mas de visão aguda para o crime, venha ele de onde vier. E que seja pesada. Não pesada para um, leve para outro. Não pesa seletiva. Pesa igual. Para o corrupto engravatado e para o ladrão de farmácia.

Porque justiça não é perdão. Justiça é equilíbrio. E, convenhamos, no Brasil, o fiel dessa balança já está tombado há décadas — pesando sempre para o lado do contribuinte trouxa, do policial desmoralizado e do cidadão abandonado.
A justiça deve ser poliglota na dureza — falar tanto o dialeto do submundo quanto o jargão do colarinho branco. Deve ter sotaque de viela e entonação de plenário. Porque o crime, no Brasil, é bilíngue: ora fala com gírias, ora com habeas corpus preventivo. E se a justiça quiser ser eficaz, que se adapte — mas sem jamais perder o tom firme.

Se for para dizer “vai em cana”, que diga. Se for para escrever “decreto a prisão preventiva com fulcro no artigo tal”, que o faça. Desde que prenda mesmo.

Mas calma, dizem os defensores da “democracia em reconstrução”. Calma que tudo vai melhorar. Sim. Talvez. Quando o ladrão de galinha tiver o mesmo medo da justiça que tem de uma cerca elétrica.

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