
Há um tipo especial de náusea que só os lúcidos experimentam: ver, diante dos olhos, a lenta e calculada decomposição de um cérebro brilhante — outrora farol da crítica e do refinamento — agora reduzido a dancinhas, memes e frases de efeito saídas de almanaques de autoajuda de camelô. O fenômeno é antigo, mas sua recorrência recente exige uma pequena crônica de registro, para que a história, um dia, saiba que nós vimos. E não caímos.
O que leva um expoente intelectual, exímio na articulação de ideias, bem vestido na gramática e na ética, a se transformar em personagem vulgar de si mesmo? Seria isso um acidente retórico? Um tropeço momentâneo no lodo da timeline? Nada disso. Trata-se de uma escolha. Fria. Estratégica. E profundamente cínica.
Porque os novos tempos não premiam o rigor. Premiam a caricatura. Aquele que ousa pensar, refletir e articular é, no máximo, tolerado. Já o que gargalha em caixa alta, dança com camiseta suada e exalta os “do povo” — mesmo que nunca tenha pisado no transporte público — esse é promovido a “líder”. E os nossos ex-intelectuais, de tão atentos ao jogo, agora querem jogar.
E jogam sujo. Começam aos poucos, claro. Primeiro, um meme sem graça. Depois, uma piadinha “pra engajar”. Logo, vêm os vídeos com gírias forçadas, o deboche rasgado contra qualquer nuance, e o mergulho voluntário no esgoto onde floresce o aplauso fácil. Tudo isso em nome de uma causa maior: conquistar o coração dos encautocratas — essa classe cada vez mais numerosa, que acredita piamente que política se faz com carisma e governo com curtidas.
Afinal, para essa multidão dopada de dopamine digital, um jogador de futebol pode, sim, ser presidente. Um coach de palco pode ser chanceler. E um intelectual pode, por que não, virar um animador de auditório. Basta que dance. Basta que pare de pensar. Basta que sorria de forma plastificada e finja que está tudo bem. Que a estupidez é liberdade. Que a ignorância é povo.
Mas o povo, coitado, mal percebe que virou escada para a vaidade dos iluminados convertidos ao culto do like. O povo, neste teatro, é só pano de fundo. O centro da cena é o ególatra, o messiânico de si mesmo, que um dia citava Platão e agora viraliza com bordões de TikTok. São esses que nos olham de cima, com seus seguidores inchados, e dizem: “É preciso descer para se fazer entender”. Não, caro farsante. Você não desceu para se fazer entender. Você se prostituiu para ser aceito.
A verdade é que há uma diferença brutal entre ser popular e ser populista. Entre comunicar e se ajoelhar. Entre construir pontes e se jogar na lama para ver se lá embaixo alguém te chama de irmão. A sociedade não se transforma por meio de pantomimas. E o idiota útil de hoje é, com sorte, o meme esquecido de amanhã.
Enquanto isso, seguimos por aqui, respirando fundo e nos lembrando que não há vergonha em perder seguidores, desde que se mantenha a coluna vertebral ereta. Que não há glória em ser celebrado por quem só compartilha aquilo que não entende. E que há uma dignidade serena em não se render ao aplauso dos que nunca leram — e nunca lerão — uma linha sequer do que você um dia foi capaz de escrever.