
Não se pode mais pensar em voz alta no Brasil. Tampouco em silêncio. Refletir, cogitar, conjecturar — tudo isso agora é matéria-prima para ações penais, desde que o pensamento em questão não siga o fluxo das águas consagradas pelo Supremo Cano Doutrinário da República. Houve reuniões, conversas, talvez planos, talvez bravatas — enfim, o “powerpoint” do golpe está aí, com direito a generais réus e minuta em papel timbrado da ficção. Mas ninguém apertou o botão vermelho. Ninguém invadiu quartel com tanque de verdade. A conspiração, se houve, morreu no brainstorming.
Ainda assim, a Justiça — ou melhor, a entidade outrora conhecida por esse nome — decidiu que pensar já é crime. Não executar um golpe é, paradoxalmente, mais grave do que executá-lo. O pensamento passou a ser punido com mais rigor do que a corrupção em três instâncias.
Se houvesse imparcialidade, poderíamos até fingir que tudo isso foi para “salvar a democracia”. Mas houve, sim, uma escolha de lado. A Justiça que manda prender quem sonhou acordado foi a mesma que libertou o presidiário e o reconduziu ao trono, como se ressuscitar um condenado fosse sinônimo de justiça restaurativa. Um candidato foi blindado, o outro, silenciado. Verdades incômodas foram tratadas como fake news, e críticas legítimas viraram crimes contra o regime da sensibilidade seletiva.
E agora, o novo messias da democracia brasileira visita ditadores, abraça terroristas e sorri em Moscou enquanto fala de paz. Tudo muito normal, segundo os manuais do Itamaraty tropicalista. Mas não pinte uma estátua com batom, ou o peso da lei cairá sobre você como um dicionário de Orwell.
A democracia, essa entidade alegórica, já não vive por aqui. Morreu soterrada entre decisões monocráticas, candidatos com ficha suja e votos que obedecem algoritmos. O cidadão de bem disputa espaço com delinquentes em pé de igualdade jurídica — ou pior, em desvantagem. Afinal, os “bandidos de estimação” servem melhor aos interesses de quem governa por tutela judicial.
Então, sim: talvez tenha havido conversas sobre um golpe. Mas por que a censura preventiva? Por que esconder o enredo do povo? Se fosse mesmo uma democracia, como dizem, o povo teria o direito — vejam só — de saber o que está acontecendo.
No fim, restam perguntas que ecoam no vácuo: por que continuam presos aqueles que apenas se manifestaram? Por que os inocentes foram convidados a assumir culpas alheias? Por que uma garota com batom virou símbolo do terror institucional?
O Brasil vive tempos kafkianos, com tintas de Macunaíma e direção de algum juiz frustrado por não ter sido roteirista da Netflix. A tragédia virou farsa. A farsa, dogma. E quem ousar duvidar da versão oficial é imediatamente rebaixado ao papel de réu — ou herege.
Mas sigamos observando. Porque se pensar virou crime, observar talvez ainda seja tolerado. Por enquanto.