
O crime organizado no Brasil não apenas consolida seu poder em áreas urbanas e rurais, mas também se infiltra na cultura, desafiando os valores de uma sociedade que clama por segurança e justiça. Um exemplo alarmante é a notícia, reportada pela Brasil Paralelo, de que Lucas Camacho, filho de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), e Oruam, filho de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, do Comando Vermelho (CV), planejam uma colaboração musical em 2025. Essa parceria, longe de ser apenas artística, levanta sérias preocupações sobre a glamourização do crime, enquanto a grande mídia silencia sobre o avanço das facções e a ineficácia das políticas públicas de segurança.
A colaboração musical entre os herdeiros de dois dos maiores líderes criminosos do país é um sintoma de um problema mais profundo: a normalização da cultura do crime. Oruam, com 8,6 milhões de seguidores nas redes sociais e 13,2 milhões de ouvintes mensais no Spotify, já esteve no centro de polêmicas por suas letras que glorificam a vida criminosa. Sua participação no Lollapalooza, vestindo uma camisa com a imagem de Marcinho VP, e sua tatuagem em homenagem a Elias Maluco, assassino do jornalista Tim Lopes, são exemplos de como o crime é romantizado. A proposta da vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil), em São Paulo, de proibir shows que incentivem o crime, foi recebida com ameaças, evidenciando o poder de intimidação dessas figuras. Enquanto isso, Lucas Camacho, aos 16 anos, busca espaço no cenário do trap, um gênero que, embora expresse a realidade das periferias, também pode servir como ferramenta de fortalecimento estético do crime.
O que a grande mídia prefere ignorar é o contexto mais amplo: o crime organizado não está apenas na música, mas domina territórios e corrompe instituições. No Rio de Janeiro, a situação é particularmente grave. Dados do Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro mostram que 4,4 milhões de pessoas vivem em áreas controladas por facções ou milícias, com 19% do território da Região Metropolitana sob domínio criminoso em 2025, contra 9% em anos anteriores. O Secretário de Polícia Civil do Rio, Marcus Amim, declarou em 2024 que “a guerra às drogas já acabou”, admitindo a derrota de estratégias repressivas tradicionais. Essa afirmação, pouco explorada por veículos mainstream, reflete a incapacidade do Estado de conter o avanço de grupos como o Comando Vermelho, que expandiu sua atuação para mais três estados nos últimos anos, operando com autonomia financeira em 91% dos casos.
A ineficácia das políticas públicas de segurança é um tema recorrente em fontes alternativas, como essa revista, que defendem medidas mais duras contra o crime organizado. Um estudo da Esfera Brasil estima que facções como o PCC e o CV movimentam R$ 335 bilhões apenas com o tráfico de cocaína, equivalente a 4% do PIB nacional. Esses recursos financiam não apenas o tráfico, mas também atividades aparentemente legais, como transporte público e coleta de lixo, além de campanhas políticas, segundo o jurista Walter Maierovitch, em entrevista ao Jornal da USP. A trégua entre PCC e CV é outro sinal preocupante, pois fica claro que as facções, lideradas por Marcola e Marcinho VP, uniram forças para flexibilizar regras do sistema penitenciário federal e expandir rotas de tráfico, como a “rota caipira” (Bolívia-Santos) e a “rota do Solimões” (Amazônia).
Enquanto isso, o Estado permanece refém de suas próprias contradições. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta que o Brasil, com a terceira maior população carcerária do mundo, vê o encarceramento fortalecer, e não enfraquecer, as facções. O cientista social Vinícius Figueiredo, da Unesp, critica políticas baseadas apenas em repressão, que “só fortalecem o ciclo de violência”. No Rio, a aliança entre milícias e traficantes, noticiada pelo MyNews, mudou a geografia do crime, com milícias adotando práticas antes exclusivas do tráfico, como a venda de drogas. A ausência de políticas de longo prazo, somada à corrupção e à omissão de agentes estatais, permite que facções prosperem, como destaca a antropóloga Jacqueline Muniz, da UFF.
A verdade é inegável: o crime organizado não é apenas uma questão de segurança, mas uma ameaça à soberania nacional e aos valores que sustentam a sociedade brasileira. A glamourização do crime na cultura, como na colaboração entre Oruam e Lucas Camacho, é apenas a ponta do iceberg. Sem medidas duras, inteligência policial e políticas públicas que ataquem as raízes da desigualdade e da ausência do Estado, o Brasil seguirá assistindo ao avanço de um poder paralelo que corrompe, intimida e destrói. É hora de exigir honestidade e coragem das autoridades para enfrentar essa realidade, antes que a distopia se torne irreversível.