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EDUCAÇÃO NO BRASIL

UMA CRISE SILENCIODA DE PRECARIEDADE E ABANDONO

Maria Rosa M Pires
Por: Maria Rosa M Pires
07/04/2025 às 14h07
EDUCAÇÃO NO BRASIL
A educação brasileira enfrenta uma crise que vai além das salas de aula e atinge as raízes do desenvolvimento do país. Dados recentes revelam um sistema em colapso. O Brasil caiu em rankings internacionais de desempenho educacional nos últimos anos, mas a suspensão da participação em algumas avaliações globais pelo governo dificulta medir a real extensão do problema. Enquanto isso, a precariedade estrutural e os cortes orçamentários agravam um cenário já crítico, com 1,4 milhão de alunos estudando em escolas sem acesso a água tratada e uma escassez alarmante de professores em áreas rurais. Para entender o que está acontecendo, é preciso olhar os números e ouvir quem vive essa realidade.
 
Rankings em Queda e Comparações Suspensas
Nos últimos anos, o Brasil perdeu terreno em avaliações internacionais como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), organizado pela OCDE. Em 2018, o país ocupava a 57ª posição em leitura, 52ª em ciências e 70ª em matemática entre 79 nações — já um resultado preocupante. Desde então, especialistas apontam que o desempenho não melhorou, mas o governo optou por suspender a participação em algumas edições ou não divulgar dados completos, dificultando comparações precisas. "Sem esses rankings, ficamos no escuro sobre onde estamos falhando e o quanto pioramos", alerta Claudia Costin, ex-diretora de Educação do Banco Mundial. A falta de transparência mascara a gravidade da situação e impede o planejamento de soluções baseadas em evidências.
 
Escolas Sem Água e Professores Sumidos
O Censo Escolar 2023, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), expõe uma realidade alarmante: 1,4 milhão de estudantes da educação básica estão matriculados em escolas públicas sem acesso a água tratada. Isso significa que 7,5 mil unidades — cerca de 4% do total de escolas públicas do país — não oferecem uma condição básica de higiene e saúde. Desses, 224 mil alunos estão em 3 mil escolas onde a água simplesmente não existe, dependendo de fontes improvisadas ou da boa vontade de vizinhos. "É impossível aprender com sede ou preocupação com doenças", diz Maria Silva, mãe de um aluno em uma escola rural no interior do Piauí.
A falta de professores em áreas rurais é outro golpe duro. Dados do mesmo censo mostram que milhares de escolas nessas regiões operam com equipes incompletas, com professores acumulando disciplinas ou abandonando os postos por falta de incentivo. Em 2023, o IBGE estimou que cerca de 68 milhões de brasileiros não têm escolaridade básica completa, um reflexo de décadas de negligência que se agrava com a ausência de educadores. "Os professores não ficam porque o salário é baixo e as condições, precárias", explica João Lima, diretor de uma escola no interior de Goiás, onde a rotatividade é constante.
 
Cortes no Orçamento: Menos Dinheiro, Mais Problemas
Enquanto a infraestrutura desmorona, os cortes no orçamento da educação jogam lenha na fogueira. Em 2021, o governo Bolsonaro bloqueou R$ 2,7 bilhões do orçamento discricionário do Ministério da Educação, cerca de 13,8% das despesas não obrigatórias previstas, em meio à pandemia, quando as aulas presenciais estavam suspensas. Parte desses recursos foi desbloqueada ao longo do ano para atender às demandas das instituições federais, mas os desafios orçamentários persistiram. Em 2024, o orçamento executado foi de R$ 110,9 bilhões, mas, ajustado pela inflação, o valor real caiu em relação a anos anteriores. Para 2025, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) prevê R$ 200,5 bilhões, mas especialistas apontam que, descontada a inflação projetada em 4%, o aumento é insuficiente para cobrir as demandas crescentes. Comparado a países da OCDE, o Brasil investe pouco: em 2020, enquanto a média dos países membros era de US$ 11.560 por aluno, o Brasil destinou apenas US$ 4.306, segundo o relatório Education at a Glance 2023. Entre 2019 e 2020, o gasto total com educação caiu 10,5%, enquanto os países da OCDE aumentaram seus investimentos em 2,1%. "Estamos andando para trás enquanto o mundo avança", afirma Natália Fregonesi, da ONG Todos pela Educação.
 
O Impacto nas Crianças e no Futuro
A precariedade na educação não é só uma questão de números — ela molda o destino de milhões. Em 2023, 480 mil estudantes abandonaram o ensino médio, muitos por necessidade de trabalhar ou por falta de condições mínimas nas escolas, como banheiros funcionais ou transporte. Nas áreas rurais, onde 5,9% dos alunos evadem, a ausência de professores e infraestrutura básica é um obstáculo quase intransponível. "Minha filha perdeu um ano inteiro porque não tinha quem ensinasse matemática", relata José Santos, agricultor no Maranhão.
Os cortes e a negligência também afetam os professores. Em São Paulo, o salário médio de R$ 7.590 por mês (dados de 2024) mal cobre o custo de vida, estimado em R$ 5.000, mas em áreas rurais os valores são ainda menores, muitas vezes abaixo do mínimo nacional. Sem formação contínua — apenas 39% dos docentes participaram de programas em 2019, segundo o Borgen Project — e com turmas superlotadas, o magistério perde qualidade e atratividade.
 
Um Chamado à Ação
A educação brasileira está em um ponto de inflexão. Enquanto o governo exalta programas como o Pé-de-Meia, que paga R$ 40 mensais a alunos pobres para reduzir a evasão, as soluções parecem curativos em uma ferida profunda. Sem investimento maciço em infraestrutura, valorização docente e transparência nos indicadores, o país arrisca condenar gerações ao atraso. A sociedade sofre com escolas sem água, professores ausentes e um orçamento que encolhe diante das necessidades. Além disso, há o crescente problema da doutrinação por parte do corpo docente, com relatos de professores que, em vez de ensinar criticamente, impõem visões ideológicas aos alunos, comprometendo a formação de uma geração que deveria se tornasr pensante e independente. A pergunta que ecoa é simples, mas urgente: até quando o Brasil vai tratar a educação como luxo, e não como direito?
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