
A sociedade contemporânea, em sua ânsia por parecer justa, acabou se tornando perversa. Em nome da inclusão, impôs-se uma nova cartilha de siglas, rótulos e performances obrigatórias, que pouco têm a ver com o respeito autêntico e muito a ver com a estética do politicamente correto. A dignidade humana foi transformada em uma identidade de mercado. E o ser humano, reduzido a um slogan.
Tomemos como exemplo uma cerimônia recente na Sinagoga Central, em que uma pessoa trans teve espaço de fala durante o Shabbat. À primeira vista, um gesto simbólico. Bonito, até. Mas ao olhar mais fundo, vemos um sintoma de um problema maior: a substituição da transformação profunda — que viria do reconhecimento genuíno do outro como humano — por uma performance de tolerância. É o progressismo protocolar, que fala em nome da aceitação, mas raramente toca na raiz da exclusão.
O mesmo ocorre no debate público mais amplo. Gays, lésbicas, pessoas trans, não-binárias, negros, indígenas, asiáticos: todos transformados em categorias operacionais, facilmente exploradas por políticos e instituições que usam essas causas para se promover, e não para mudar a lógica da exclusão. O rótulo virou instrumento de uso eleitoral e de publicidade institucional. E a dignidade, essa que só existe na ausência de rótulos, foi deixada de lado.
Não se trata de negar as diferenças — mas de recusar a fetichização dessas diferenças como forma de controle. Quando o ser humano é reconhecido apenas enquanto parte de um grupo rotulado, perde-se a universalidade do respeito. E ao perder essa base comum, abre-se caminho para mais ignorância, mais tribalismo, mais incivilidade.
Respeitar o ser humano como ser humano — esta é a tarefa urgente. Não se trata de criar categorias, mas de dissolvê-las onde elas nos separam. A verdadeira civilidade começa quando ninguém precisa justificar sua existência. Quando a aceitação não exige microfone, nem desfile, nem legislação especial — mas apenas olhos limpos e consciência desperta.
A humanidade não pode ser administrada por siglas. Ela precisa ser reconhecida no singular: um por um, em silêncio, no gesto. E enquanto isso não for compreendido, continuaremos assistindo à propaganda da igualdade, sem jamais tocarmos na sua substância.