
Foi lançado como uma opção inovadora e, de fato, trouxe algumas novidades. No entanto, sem que muitos percebessem, escondia uma série de problemas que só se tornavam evidentes com o tempo e o uso contínuo. Ainda assim, em um mercado com poucas inovações, acabou se tornando o “queridinho” do Brasil, mesmo sem apresentar, ao longo dos anos, qualquer modificação significativa — interna ou externa.
Com raras opções de concorrência, algumas diferenciando-se apenas na aparência, mas carregando problemas semelhantes, ele reinou absoluto por mais de 20 anos. Quem apostou nele conhece bem essa história: um verdadeiro ralo de dinheiro, sempre apresentando sinais distintos de problemas — alguns graves, outros resolvidos no famoso “jeitinho brasileiro”. A propaganda massiva e a imprensa especializada, mesmo cientes de suas falhas, seguiram enaltecendo sua imagem.
Entre os problemas crônicos, o mais evidente para o bolso dos proprietários sempre foi o consumo exagerado. Desde sempre, sua fraqueza foi o álcool — um consumo inacreditável, que se tornou piada entre os concorrentes. Nem mesmo após 580 dias em oficina especializada, com acompanhamento minucioso de técnicos, foi possível reduzir seu apetite voraz. Quem conhece, sabe do ditado: “consome até parado”.
O projeto nasceu no meio do século passado, misturou conceitos europeus com americanos, mas que, por isso mesmo, dava muita dor de cabeça para quem cuidava da engenharia da coisa, porque, apesar do externo ser atraente, o “motor” era pouco eficiente, com conceito obsoleto, insuficiente para garantir a força necessária para empurrá-lo nos caminhos que precisava seguir. E não adiantava trocar peças se a força motriz continuava sempre a mesma, beberrona e ineficiente.
Os apaixonados sempre minimizaram os defeitos, mas os donos aos poucos perceberam o tamanho da encrenca em que haviam se metido. A combinação de padrões técnicos diferentes exigia uma miscelânea de ferramentas e soluções improvisadas para mantê-lo funcionando. Além disso, seu peso excessivo frequentemente causava trincas estruturais, que podiam ser minimizadas, mas nunca completamente resolvidas.
Toda vez que perdia o rumo, tinha sempre um pivô pra levar a bucha, a culpa caía em algum lugar, faziam uma troca, mas a origem do problema continuava. E isso era na frente. Atrás, era difícil manter um diferencial porque não era fácil manter o conjunto fixo com um apoio tão frágil e flexível.
Outra dificuldade sempre foi equalizar a distribuição. Enquanto a mistura alimentava demais uns lados do motor, outros recebiam muito pouca mistura, o que vivia causando engasgos que, somados aos outros problemas de alimentação, faziam com que ele aumentasse a ineficiência e bebesse muito mais. E não podemos esquecer também da ferrugem característica para todo lado, cuja culpa atribuíam a influência de uma metalúrgica lá do ABC que contaminava pelo ar todos os modelos que saíam dali. Costuma dizer, inclusive, que a matéria-prima também não era das melhores, o que facilitava que enferrujasse rapidamente.
O maior problema de todos, porém, e todo mundo sabe disso, sempre foi a questão dos vazamentos, algo que nunca foi corrigido. Muita gente ficou rica com os vazamentos, comuns até hoje, dando sentido ao ditado que diz “enquanto uns choram, outros vendem lenços”. Não tem retentor que dê jeito. E muita gente especializada costuma dizer que “se não tiver vazamento, pode procurar porque tem um problema maior escondido”, que vai custar muito dinheiro quando descobrir.
E, claro, havia a caixa de marchas. Quando acavalava, não ia nem para trás, nem para frente. O dono ficava ali, olhando, tentando resolver, mas no fundo já sabia: enquanto não mexesse na estrutura, não tinha conserto. E nesse ponto, todo mundo aprendeu que empurrar não adianta — bebe cada vez mais e continua parado.
Depois de tantos modelos novos, com estilo arrojado, com motores mais potentes e econômicos, capazes de levar qualquer um mais longe sem dores de cabeça, que incorporam tecnologia de ponta inspirada nas soluções mais eficientes do mercado, utilizando a eletrônica para garantir eficiência em todo o conjunto, sem problemas crônicos, muito mais bem acabados, que oferecem mais segurança e conforto, tem que ser muito apaixonado para apostar em modelos velhos e que já surgiram decadentes diante do mundo quando apareceram.
Só mesmo os saudosistas para apostar num modelo tão antiquado e ineficiente, com problemas insolúveis, como a bebedeira incontrolável, a manutenção cara, sempre precisando trocar peças para continuar funcionando, até mesmo detalhes de acabamento, como bancos e tapetes caríssimos para dar alguma ostentação. E pior de tudo, pagando caro por isso, muitas vezes mais caro do que um modelo novo.
Mas, memória afetiva é um problema, e muitos desses saudosistas às vezes compram lembrando de um passado que não existe mais, acabam vendendo ou ficam com o mico na mão porque não querem dar a mão à palmatória, temendo passar vergonha.
Esse é o Opala. Quem teve um – ou ainda tem – sabe bem do que estou falando. Mas sempre há tempo para uma escolha melhor, não é mesmo? Até os saudosistas, no fundo, sabem que já tivemos coisa melhor rodando por aí – mesmo que finjam não admitir.
Ah, e duas coisinhas!
E os miolos das chaves, que facilitavam absurdamente os roubos?
E aquele modelo vermelho horrorooooooso?