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POLÍTICA NÃO É NOVELA, NEM PROGRAMA HUMORÍSTICO

Quando a capacidade de rir da própria desgraça se torna a maior desgraça

Hermínio Naddeo
Por: Hermínio Naddeo Fonte: Opinião
22/06/2026 às 10h51
POLÍTICA NÃO É NOVELA, NEM PROGRAMA HUMORÍSTICO
Imagem IA

Desde o início da Operação Lava Jato, a população brasileira passou a acompanhar o noticiário sobre as ações da Justiça contra políticos e empresários com o mesmo interesse e assiduidade que acompanhava novelas. A cada dia, novas descobertas, revelações, prisões, buscas e apreensões alimentavam a expectativa pelo capítulo seguinte. E quando chegava uma sexta-feira, já se aguardava ansiosamente uma nova fase da operação, capaz de produzir mais fatos que sustentariam a trama da semana seguinte.

Antes da Lava Jato, operações como Anaconda, Satiagraha, Navalha, Furacão, Castelo de Areia, Monte Carlo e Porto Seguro também ocuparam espaço no noticiário. Ainda assim, arrisco dizer que a maioria dos leitores não sabe exatamente do que tratavam nem qual foi o resultado concreto de cada uma delas.

A decepção da população brasileira com essas grandes operações nasceu justamente do contraste entre a expectativa criada e o resultado percebido. Durante anos, investigações, prisões e denúncias alimentaram a sensação de que o país finalmente enfrentaria a corrupção de forma definitiva. Porém, com o passar do tempo, muitas dessas operações foram esquecidas, tiveram seus processos enfraquecidos por decisões judiciais, anulados ou simplesmente não produziram as punições esperadas pelo cidadão comum.

O sentimento que permaneceu foi o de assistir a uma sucessão de escândalos que prometiam um desfecho grandioso, mas raramente entregavam a conclusão aguardada. E há um elemento comum entre todas elas, incluindo o Mensalão e o caso do Banco Master: o padrão se repete. Não é necessariamente o mesmo político, mas o mesmo modelo de relação entre grandes grupos econômicos, operadores financeiros, empreiteiras, partidos e agentes públicos.

A população viu nomes diferentes, partidos diferentes e escândalos diferentes, mas sempre com um núcleo recorrente: grandes recursos, influência política, intermediários e enorme dificuldade de transformar revelações em punições percebidas como definitivas. Esse é justamente o elo entre Anaconda, Satiagraha, Mensalão, Lava Jato e o caso Master. Muda o caso, mas o mecanismo reaparece, sempre certo da impunidade.

Acontece que política não é novela. As operações aqui citadas não são obras de ficção. Os personagens não são atores profissionais. Os valores bilionários revelados e a forma como eram obtidos e distribuídos não foram criados para tornar a trama mais emocionante. Ao contrário da fantasia, os efeitos da corrupção são reais. Ela mata pela falta de assistência médica, pela precariedade da infraestrutura, pelo abandono de serviços essenciais, destrói famílias e condena o Brasil ao subdesenvolvimento enquanto uma elite criminosa continua entiquecendo, roubando o dinheiro dos impostos pagos pela população.

VOCÊ ANDA RINDO DE QUÊ? NADA DISSO É ENGRAÇADO!

Há cerca de 500 anos antes de Cristo, Aristófanes já fazia sátiras políticas. Mais tarde, os romanos transformaram a sátira em gênero literário. Portanto, não sou contra o humor. Pelo contrário. Dou risada até do que não tem tanta graça. Mas nem tudo pode ser motivo de piada.

O envolvimento recorrente de senadores, deputados e autoridades em escândalos de corrupção pode até parecer esquete humorística, mas continua sendo crime cometido com dinheiro tirado do seu bolso.

Chamar o Congresso Nacional de Zorra Total pode soar engraçado, mas o que existe ali é um sistema que consome recursos produzidos pela população. Dar gargalhadas com os tropeços de Lula e Janja no português também faz parte do espetáculo, mas eles certamente não perdem o sono enquanto se hospedam em hotéis de luxo pagos pelo contribuinte.

Quando vejo canais de YouTube tratando política como entretenimento, fico me perguntando se as pessoas entendem a crítica ou apenas se divertem com ela. Essa discussão também já acontecia na Roma antiga, com críticos que argumentavam se a sátira produzia um despertar da consciência política ao expor o rídiculo do poder ou apenas transformava a indignação em entretenimento, fazendo as pessoas rirem do problema sem agir para resolvê-lo.

Expressões como “pega a pipoca”, “fique confortável” ou “vamos às cenas dos próximos capítulos” transformam a desgraça política nacional em espetáculo. A fórmula é a mesma dos programas humorísticos que fizeram sucesso por décadas: bordões, personagens caricatos, expressões previsíveis e enquadramentos pensados para provocar risadas, consagrando humoristas como Chico Anísio, Jô Soares e programas como A Praça é Nossa e a Escolinha do Professor Raimundo. Não se sabe se o público está ali para se informar ou para se divertir.

O povo brasileiro é conhecido pela alegria e pelo bom humor, mas chega a ser surpreendente nossa capacidade de continuar rindo diante da própria realidade. Vivemos sob um Judiciário cada vez mais ditatorial, temos um presidente que foi condenado em três instâncias e preso, assistimos a processos controversos, decisões questionadas e escândalos sucessivos envolvendo bilhões de reais, enquanto criminosos perigosos frequentemente encontram portas abertas para voltar às ruas.

Como ainda conseguimos rir da nossa própria desgraça em um país onde um novo escândalo surge praticamente todos os dias, quase sempre envolvendo os mesmos métodos, os mesmos grupos e cifras cada vez maiores? Todo esse dinheiro existe porque trabalhamos, produzimos e pagamos impostos. Impostos que aumentam, se multiplicam e raramente retornam em serviços compatíveis com o que foi arrecadado.

Não dá mais para tratar os maiores escândalos do país como capítulos de novela. É impraticável continuar transformando autoridades envolvidas em escândalos em celebridades ou meros memes divertidos. Muito menos ignorar que os milhões e bilhões mencionados nessas investigações são fruto do trabalho de quem paga impostos.

Talvez, e só talvez, quando entrar na consciência do brasileiro que política não é novela nem programa humorístico, ele perceba que não apenas ri da própria desgraça, mas também a financia. E quando descobrir isso, vai entender que não existe graça nenhuma.

Já passou da hora de entendermos a diferença entre sorrir e só rir. Enquanto não aprendemos, eles continuam gargalhando de nós.

 

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Hermínio Naddeo
Hermínio Naddeo
Escritor/Jornalista, mestrado em palpitologia, doutorado em opinologia, pós-doutorado em falastronismo.

Administrador, publicitário, jornalista, com quase duas décadas de atuação na cobertura política e análise de conjuntura nacional. Especializado em leitura estratégica de cenários, mantém uma linha editorial independente e de viés conservador, com foco em liberdade, soberania e responsabilidade institucional. É colunista do site No Ponto do Fato, onde assina artigos que aliam crítica firme, ironia pontual e compromisso com a verdade. Registro profissional MT 22619/MG.
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