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QUANDO DIZER “PAPAI” E “MAMÃE” PARECE TER VIRADO UM INCÔMODO

A Impaciência e o Tempo

Hermínio Naddeo
Por: Hermínio Naddeo Fonte: Autoral
11/06/2026 às 11h47
QUANDO DIZER “PAPAI” E “MAMÃE” PARECE TER VIRADO UM INCÔMODO
Imagem IA

Estava eu no metrô esta semana, sentado na cadeira azul de prioridade — uma das poucas prerrogativas da idade que costumo usar —, quando ao meu lado sentaram-se uma senhora de prováveis setenta e muitos anos e sua filha, que aparentava ter pouco mais de cinquenta. Chamou-me a atenção a impaciência daquela filha desde o momento em que entraram no vagão. A mãe não foi conduzida pela filha; foi literalmente empurrada vagão adentro, como quem leva um volume grande e difícil de conduzir.

Ao se sentarem, a mãe ficou junto à janela e a filha, com a expressão extremamente fechada, ficou no corredor. A filha demonstrava sinais de irritação, tensão e, principalmente, impaciência, o que rapidamente ficou comprovado pela maneira como respondia asperamente às poucas perguntas que a mãe lhe fazia, sem, em nenhum momento, olhar para ela. E eu observava a mãe nesses momentos. Ela demonstrava certo constrangimento ao ouvir a filha, mas disfarçava olhando pela janela, como se, dentro dos túneis do metrô, estivesse vendo alguma paisagem interessante.

Não faço a menor ideia se aquela filha estava enfrentando problemas naquele dia ou se esse é o seu comportamento habitual com a mãe. Mas a cena me fez refletir bastante sobre a idade, sobre a velhice, algo em que, apesar dos meus 62 anos, já venho pensando e que já venho sentindo há algum tempo, em relação a mim mesmo, à minha relação com minhas filhas e à vida de modo geral. Sou abençoado pelas filhas que tenho, mas a possibilidade de ser um incômodo para elas, neste momento ou no futuro próximo, me preocupa muito.

Seria um erro generalizar e afirmar que todos os filhos são impacientes com os pais ou que não cuidam deles nem se preocupam com suas questões. Da mesma forma, seria errado dizer que todos os idosos são velhinhos adoráveis, que não causam problemas ou não têm temperamentos extremamente difíceis. Eu, por exemplo, sei que não sou uma pessoa fácil de lidar. Sou genioso, tenho pontos de vista fortes sobre diversas questões, além das inúmeras manias adquiridas ao longo da vida, e entendo o quanto isso pode criar afastamentos e resistências em relação a mim.

A situação daquela mãe e daquela filha me lembrou de um vídeo em que um pai com Alzheimer está sentado em um banco de jardim ao lado do filho, que lê um jornal. O pai aponta para um passarinho e pergunta ao filho: “O que é aquilo?” O filho olha com certo desdém, responde que é um pardal e reage de maneira extremamente impaciente quando o pai repete a mesma pergunta mais duas ou três vezes. Até que o pai se levanta, sai de cena e retorna com um caderno na mão, que mostra ao filho. Nele há anotações de quando o rapaz tinha três anos e eles estavam em um parque, ocasião em que perguntou ao pai, por 21 vezes, “O que é aquilo?”. (Deixei o vídeo postado na seção de vídeos do site – mais abaixo na primeira página do site)

Obviamente, o Alzheimer é uma situação extrema. Não é fácil lidar com uma pessoa nesse estado, não importa a idade que ela tenha, algo que, infelizmente, também acontece com pessoas mais jovens. Mas as dificuldades de uma pessoa idosa não se reduzem a situações extremas. Dificuldades de mobilidade, visão, audição, fala, questões financeiras, emocionais ou de saúde geram algum tipo de limitação que não incomoda apenas quem sofre delas, mas também aqueles que convivem ao redor da pessoa.

Depender dos filhos, operacional, emocional ou financeiramente, não é uma escolha, mesmo quando a dependência financeira decorre de uma má administração da própria vida ou de circunstâncias involuntárias. Mas, seja qual for o motivo, ainda que os filhos sejam extremamente cuidadosos e generosos, o sentimento de impotência existe, causa constrangimento e afeta o emocional da pessoa, algo que certamente se agrava quando uma filha trata a mãe da maneira que vi acontecer no metrô.

Muitos filhos esquecem que dizer “pa-pai” e “ma-mãe” já foi uma conquista estimulada pelos próprios pais, e motivo de felicidade antes disso ser sinônimo de problema em suas vidas. Não se lembram das tantas vezes em que levá-los a algum lugar significou ausentar-se do trabalho, adiar compromissos e reorganizar a própria rotina. E, mesmo assim, tudo isso era feito com carinho, cuidado e proteção.

Muitos esquecem que o trabalho dos pais tinha por finalidade garantir aos filhos a melhor moradia, a melhor alimentação, a melhor escola, as melhores roupas e o melhor cuidado com a saúde dentro de suas possibilidades, muitas vezes fazendo por eles aquilo que deixavam de fazer por si próprios.

Felizmente, existem filhos que se preocupam genuinamente com os pais, participam de suas vidas, são pacientes, generosos e, dentro de suas possibilidades, oferecem assistência operacional, emocional e financeira. Não se esquecem de que só são as pessoas que são graças ao esforço deles, ao amor incondicional, às noites mal dormidas, às ausências em compromissos de trabalho e pessoais para garantir cuidados, contribuir para a construção de sua personalidade e fortalecer sua segurança como seres humanos.

Desci do metrô antes da mãe e da filha. Não pude ver se aquela senhora foi conduzida para fora com cuidado ou empurrada como um volume trabalhoso de movimentar. Espero, porém, que esse tipo de filha seja infinitamente mais raro do que os filhos que compreendem que a idade traz limitações, muitas das quais eles próprios poderão experimentar um dia.

Da mesma forma, espero que aquela filha trate seus próprios filhos, caso os tenha, de maneira que, quando a idade chegar, eles tenham com ela a paciência, o carinho e a generosidade que ela não demonstrou ter com a própria mãe.

Mais do que isso, torço sinceramente para que aquele comportamento tenha sido apenas fruto de um dia ruim na vida daquela pessoa.

Quase que certamente deixei de fora inúmeras questões importantes nessa minha crônica, como, por exemplo, pais que não recebem dos filhos o amor que nunca deram para eles, que abusaram física ou psicologicamente deles, ou que foram ausentes por motivos que nada tiveram em prol de sua própria família. Meu objetivo era mesmo pôr para fora o sentimento que tive da situação que presenciei, e que não foi a primeira vez. Que sirva para que a gente pense no assunto.

 

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Hermínio Naddeo
Hermínio Naddeo
Escritor/Jornalista, mestrado em palpitologia, doutorado em opinologia, pós-doutorado em falastronismo.

Administrador, publicitário, jornalista, com quase duas décadas de atuação na cobertura política e análise de conjuntura nacional. Especializado em leitura estratégica de cenários, mantém uma linha editorial independente e de viés conservador, com foco em liberdade, soberania e responsabilidade institucional. É colunista do site No Ponto do Fato, onde assina artigos que aliam crítica firme, ironia pontual e compromisso com a verdade. Registro profissional MT 22619/MG.
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