
Como resposta cultural ao que se via como tradicional e cristão (fundamentalista), um conteúdo programático foi trazido ao público brasileiro, viciando-o no entretenimento dos Trapalhões e nas canções de apologia à revolução sexual. Éramos expostos aos decibéis dos vizinhos “pré-pancadão” com músicas como:
- Só as cachorras, hu, hu, hu, hu, hu.
- Dance potranca, dance com emoção... De segunda a sexta, esporro na escola, sábado e domingo eu solto pipa e jogo bola.
- Ainda com os Racionais MCs e a construção de uma identidade cultural antagônica à polícia.
- A Banheira do Gugu; É o Tchan; Tiazinha; Feiticeira; teste de DNA do Ratinho, etc.
Não estou dizendo que o Brasil anterior a 1985 fosse culturalmente perfeito. Houve censura e outros problemas passíveis de críticas.

Porém, havia também uma tradição de valorização de compositores, escritores, cineastas, jornalistas e intelectuais que ocupavam um espaço central na vida pública.
Obviamente, a redemocratização foi uma conquista extraordinária. Entretanto, após ela, assistimos a uma derrocada dos nossos referenciais culturais.
Não quero aqui condenar o espectador. Na verdade, ele é, muitas vezes, a própria vítima de um processo que não percebe. Como disse Edson Gomes: “eles querendo mudar nossa sina, nos injetando a inconsciência. Dizendo que é a democracia, grande mentira, conto de fadas”.

Se fôssemos aprofundar esse assunto, falaríamos sobre a influência da UNESCO (1960-80) e da mesa redonda de Mônaco (dezembro de 1967) com a presença de Roberto DaMatta e Carlos Chagas Filho operando de modo direto e indireto na formação da cultura de massas no Brasil. Mas deixa para outra oportunidade.
O curioso é que nos anos 1990 a televisão descobriu que o constrangimento, a exposição corporal e a vulgaridade podiam render mais audiência do que a criatividade, e a música comercial descobriu que a repetição e o apelo sexual ocupavam o espaço antes tão exigente. Foi assim que chegamos ao “Caneta Azul” e à “menina da bota”.
Ficamos com Lula e rimos de Enéias. Disseram para nós que Vadinho era melhor que Teodoro.

Eu não me importo se alguém gosta de uma música ou de um programa popular. Mas assistimos a um processo de empobrecimento cultural e uma estagnação do pensamento. Um empoderamento cultural às avessas: em vez de valorizar o conhecimento, a sensibilidade e a capacidade crítica, se valoriza introduzir um crucifixo no ânus.

E, nesse processo calculado, fomos nos acostumando, baixando a barra de exigência e confundindo liberdade de expressão com ausência de critérios, diversidade cultural com indiferença a valores que deram norte à nossa sociedade. Tivemos a sorte de viver num país que nos deu Renato Russo, Cássia Eller, Elis Regina, Tom Jobim, Caymmi, Vinícius de Moraes e tantos outros.
Uma sociedade não precisa abandonar o popular para valorizar o sofisticado nem desprezar o entretenimento para cultivar apenas a cultura alta. Mas também não precisa louvar o ridículo e tratar a miséria cultural como sinônimo de liberdade ou evolução.
Vejam só onde chegamos: o Estado brasileiro interferindo no tipo de desenhos animados que seu filho pode assistir.

Foi nesse cenário que @jairbolsonaro encontrou espaço no debate público e abriu espaço para temas como educação sexual, formação infantil, valores familiares e liberdade dos pais na educação dos filhos em assuntos centrais do debate nacional.
Quem não se lembra do chamado “kit gay”?
Foi assim que ele entrou no set de gravação. Não como um observador silencioso, mas como um personagem que decidiu confrontar o roteiro, utilizando a própria linguagem do espetáculo para alcançar uma audiência que dificilmente seria mobilizada pelos canais tradicionais de debate.
O “acidente Bolsonaro” revelou que boa parte da população estava atenta e não se deixou inocular pela inconsciência cultural e educacional dos seus valores sociais como povo.
Essa parte, nunca vai se curvar.
Sérgio Júnior