
Às vésperas da decisão definitiva nas urnas, o atual governo recorre à clássica e perigosa cartilha do populismo tarifário. A edição da Medida Provisória 1.395, que injeta R$ 7,52 bilhões em subsídios estatais para mascarar o preço dos combustíveis e zerar tributos sobre a gasolina, expõe o desespero de uma gestão disposta a queimar os últimos cartuchos da responsabilidade fiscal em troca de dividendos eleitorais de curto prazo.
A manobra tenta criar uma sensação artificial de controle econômico no momento em que a realidade dos fatos insiste em desmentir a narrativa oficial. Trata-se de uma maquiagem contábil grosseira: segura-se o preço na bomba por meio da canetada e do aporte direto do Tesouro, enquanto as engrenagens da inflação real continuam a corroer o poder de compra da população.
Nenhum artifício canetado é capaz de revogar as leis fundamentais da economia. Enquanto o governo gasta bilhões que não tem para represamento artificial de preços, os indicadores oficiais revelam o avanço silencioso do descalabro fiscal: o IPCA acelerou para 0,82%, impulsionado pela inflação generalizada e pela desconfiança generalizada dos agentes econômicos em relação à trajetória da dívida pública.
A conta dessa intervenção desmedida não desaparece; ela apenas muda de endereço e de prazo de vencimento:
Queima de Reservas Fiscais: A alocação de R$ 7,52 bilhões em subsídios diretos aprofunda o déficit primário, obrigando a União a emitir mais títulos e elevar o custo do endividamento público.
Ancoragem Destruída: Ao sinalizar ao mercado que o controle de preços é pautado pelo calendário eleitoral e não pela paridade internacional e saúde das contas públicas, o governo eleva o prêmio de risco do país.
Pressionamento da Inflação Futura: A maquiagem temporária retém a alta na bomba hoje, mas alimenta as expectativas inflacionárias para o dia seguinte ao pleito, forçando o Banco Central a manter a Selic em patamares restritivos por mais tempo.
O represamento artificial de preços é a prova mais cabal do descompromisso com a estabilidade de longo prazo. Ao tentar mascarar a escalada do custo de vida com o dinheiro do próprio contribuinte, o Executivo repete os piores erros da história econômica recente do Brasil.
O setor produtivo e o mercado financeiro já compreenderam o mecanismo: a conta do combustível "barato" de hoje voltará multiplicada na forma de mais impostos, perda de tração econômica, juros altos e desvalorização cambial.
A tentativa de comprar a percepção do eleitor a poucos dias do segundo turno apenas escancara a fragilidade de um modelo esgotado. A economia real não aceita atalhos populistas — e o estouro do teto da inflação é a prova inequívoca de que o preço dessa conta já começou a ser cobrado.
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