
Não se pode alcançar a mais elevada consciência sem se confrontar a finitude material, pois aquela nos diz que esta última sempre será um processo transmutativo, jamais o ponto final…
Será esta a razão de ser de possuirmos consciência?
Por que razão o intelecto nos trai ou engana-se a si próprio?
Por que é que a liberdade contém a semente do mal?
Porque o ser humano encerra em si uma encruzilhada de forças e contraforças espirituais / frequenciais / quânticas.
Ele é, também, e ainda: intuição, imaginação, pensamento conceptual e simbólico, e capaz de criar representações internas muito além da percepção sensorial imediata.
Mas tais dons carregam sempre com eles uma “sombra”— a ilusão e/ou o afastamento, em maior ou menor grau, da realidade e da verdade.
A mesma faculdade que nos permite imaginar, teorizar, simbolizar e criar permite-nos, também, desprender-nos da concretude.
A imaginação permite-nos “dar o salto”, sim, mas o poder de transcender a percepção transporta, sem embargo, a possibilidade do equívoco e da errância…
A ilusão, portanto, e a existir, não será um erro a eliminar – entenda-se. Faz parte!
“Vem no pacote”!
É a “sombra / o negativo / a coroa” do próprio intelecto.
A nossa condição humana traz ainda algo igualmente periclitante: a “independência”.
O chamado “livre-arbítrio”.
Um implante satanizante, brado-o e ratifico-o, há muito, pois o que é exclusivo do Divino é imaculado, incondicional, perfeito, dadivoso e puro amor, tudo o resto é derivativo, relativizante, corrompível e conspurcável…
As trevosas forças impelem o ser humano para o instinto, a fratura, a desconexão, a separação e a existência egoica / egoística.
Isoladamente, tais forças podem tornar-se violência e maldade sobre os demais.
E é tão comum, diuturno e constante (tal malefício)…
Mas, lá está, sem elas, algo de essencial estaria em falta: a nossa individualidade e liberdade possível.
Um ser que só deveria agir de acordo com a perfeita harmonia divina não precisaria, verdadeiramente, escolher – assim seria o que seria, ponto!
Se a humanidade fosse composta apenas por forças de luz, poderíamos ser indelevelmente harmoniosos — seria o bastante, mas jamais “livres à condição”…
A possibilidade do mal está, pois, diametralmente ligada à possibilidade da liberdade.
Não porque o mal seja bom, mas porque a capacidade de escolher cria a possibilidade de escolhê-lo.
O mal é então a “sombra” da liberdade…
Já a morte está intrinsecamente ligada à própria consciência.
A vida constrói, nutre e fortalece o organismo.
Mas a consciência traz à tona a “interrupção”.
O sistema nervoso contém processos de “dissolução” e de “retirada” — formas em microescala de “morte”.
Vide o fenômeno da febre: quando as forças vitais aumentam, a consciência obscurece-se; quando diminuem, a consciência aguça-se…
A consciência exige uma força contrária à vida.
Sem alguma forma de morte não poderia haver consciência humana comum.
A “morte” não é meramente um acontecimento exterior e / ou aleatório.
Faz parte da estrutura através da qual o ser humano se torna consciente…
Somos, pois, o templo que carrega tendências opostas / contraditórias:
Imaginação <-> Ilusão
Independência <-> Maldade
Vitalidade <-> Consciência da morte
O nosso propósito não será o de destruir tais opostos, mas de transformá-los.
Eis a alquimia!
O alquimista não culpa a sua escuridão – ele estuda-a e disseca-a.
A ilusão tornar-se-á inteligência.
O instinto transformar-se-á em liberdade sem dano a terceiros ou ao próprio.
A experiência da morte tornar-se-á em consciência no seu estado mais puro e elevado.
O breu não terá de ser, pois, o destino final.
Mas “matéria-prima” para uma imperativa transmutação.
Transportamos forças que nos podem elevar e forças que nos podem enganar.
Possuímos imaginação, mas podemos perder-nos na fantasia, alucinação ou delírio.
Possuímos independência, mas podemos nos tornar perversos.
Possuímos vida, mas pereceremos.
E é precisamente através de todos estes paradoxos que nos tornamos entidades conscientes e sencientes.
O busílis não é tornarmo-nos seres infalíveis, mas sim, sagazes o suficiente para reconhecer qualquer quimera que se preze, nefastos ideários, falsas crenças, proselitismos ou doutrinações mil.
Não é tornarmo-nos incapazes de praticar o mal, mas, antes, livres o suficiente para escolher o bem, o bom, o belo e o justo.
Não é denegar, abolir ou escamotear a “morte” de nossas mentes, mas despertar a consciência inerente à condição mortal de se ser…
E a derradeira questão a ser feita não será:
“Por que é que a ilusão, o mal, a doença e a morte existem?”
Mas sim:
“No que nos poderemos transformar por conta delas existirem?”
Eco