
Perceber que não existe uma colher (poderia ser qualquer elemento corporificado ou materializável, mas resolvi escolher a colher como exemplo acadêmico da vez) não significa “estar fora” do mundo real.
Significa, tão só, deixar de estar aprisionado pelas aparências e passar a sencientizar a arquitetura divina (oculta) que a tudo e todos subjaz…
A criança calva que entorta a colher em Matrix (o longa-metragem) oferece um dos conundrum’s, à margem da lógica conceptual, mais emblemáticos da sétima arte:
“Não há colher alguma”.
Tal ilação, na esmagadora maioria das vezes, é interpretada erraticamente como uma preocupante e desdenhosa negação da realidade física.
Só que não!
O “buraco é bem mais embaixo, imperscrutável e muito mais profundo”.
Uma eventual expedição possível ao dito cujo só se dará via elevada consciência, hiper-intuição e profícua imaginação.
A colher existe como experiência sensitiva da concretude, sem margem para qualquer dúvida, mas a sua (aparente) solidez não explica o processo por detrás da sua existência.
Sob cada objeto tridimensional reside uma emaranhada coreografia de campos, probabilidades e relações.
Os átomos que constituem a colher são, em si mesmos, quase inteiramente energia mantidos unidos por forças invisíveis, e não por minúsculas “bolas de bilhar” de matéria.
A física quântica tem vindo a desmantelar e dissolver, progressivamente, a concepção de substância sólida em padrões de energia e informação.
A quântica forma de perspectivar diz-nos que a forma é secundária.
Que primário e preponderante é o padrão intangível.
Que a natureza não começa com os objetos.
Começa pelos processos.
Um remoinho não é uma coisa per si, mas um movimento contínuo da água.
Uma chama não é um objeto por essência, mas uma troca contínua de energia.
O corpo humano substitui quase todos os seus átomos ao longo do tempo, mas o padrão organizador persiste até aos últimos estertores.
A própria identidade é um ritmo vivo e atualizante, jamais uma coleção fixa de formas.
Até o eu que defendemos com tanta ferocidade é um padrão em constante mudança de memórias, hábitos e percepções que fluem através do tempo e do espaço…
É por isso que a consciência sempre ocupou um lugar tão místico na filosofia.
O mundo que experienciamos não é a realidade na sua pura essência ou plenitude, mas a realidade traduzida pelo sistema nervoso em cor, som, textura e significado – ou seja, pelo cérebro através de nossa percepção e olhar.
Cada experiência, portanto, é uma interpretação subjetiva.
Não o Quantum em sua essência e magnitude, pois que participamos, tão só, em frações pulsantes e probabilísticas (de acordo com cada foco, decisão, escolha e caminho trilhado) Dele.
Quando se compreende que a realidade é um mastodôntico portento dinâmico, e nunca estanque, fixo ou rígido, surgem possibilidades que antes estavam ocultas e incognoscíveis.
O rígido torna-se fluido e evanescente.
O corpóreo torna-se etéreo.
O impossível torna-se provável e negociável…
Deus é menos como A Entidade montada a partir de partículas separadas e mais como uma sinfonia de relações.
Cada forma é uma nota temporária dentro de uma composição infinita.
A matéria é música solidificada.
A luz desaceleração em geometria, volume e massa.
E a consciência observa-se a si própria através de inúmeras expressões e miríades…
A colher, voltemos a ela e findemos, dobra-se na seminal peça cinematográfica supracitada porque nunca foi ou é verdadeiramente rígida.
Sua rigidez é um arranjo momentâneo, e último, dentro de um universo cuja linguagem mais profunda é a vibração, a interligação e o devir…
O convite ao entendimento e clarividência nunca será para negar a realidade e o que aí está diante de nossos olhos, e que podemos enxergar, tatear ou sentir.
Mas para discernir o processo vivo e oculto do qual a realidade se auto-emana, emerge e se manifesta ininterrupta e inapelavelmente…
Eco
RESUMO:
O texto utiliza a famosa cena da colher em Matrix como metáfora para defender que a realidade não deve ser compreendida apenas por suas aparências materiais.
A afirmação: “que não há colher alguma” não é apresentada como uma negação da realidade física, mas como um convite para enxergar além da forma visível e perceber os processos, relações e padrões que sustentam aquilo que experimentamos como realidade.
O autor argumenta que aquilo que percebemos como sólido e permanente, em um nível mais profundo, é constituído por campos, energia, probabilidades e relações dinâmicas e etéreas.
A colher, o corpo humano e até a nossa identidade pessoal serão manifestações temporárias de padrões em constante transformação.
O texto também associa conceitos da física quântica a uma reflexão filosófica e espiritual, sugerindo que a essência da realidade não estará nos objetos, corpos, volumes ou massa, mas nos processos energéticos e frequenciais a montante.
São utilizados exemplos como remoinhos, chamas e a renovação dos átomos do corpo humano para ilustrar a ideia de que a permanência é mais uma continuidade de padrão do que de substância.
Na parte final, a consciência é apresentada como um elemento central da experiência humana de ser e a realidade percebida é descrita como uma interpretação produzida pelo sistema nervoso e sensitivo.
O texto conclui que compreender a natureza dinâmica da existência amplia as possibilidades de entendimento do mundo e aproxima o indivíduo de uma percepção mais profunda daquilo que o autor chama de “processo vivo e oculto” da realidade.
TEMAS CENTRAIS
· Aparência versus Essência.
· Realidade como processo dinâmico, não como estrutura fixa.
· Influência de conceitos da física quântica na reflexão filosófica.
· Consciência, percepção e subjetividade.
· Dimensão espiritual da existência e da realidade.
O texto possui caráter ensaístico e contemplativo, combinando filosofia, espiritualidade e referências à moderna física e mecânica criacionista.
A linguagem é metafórica, poética e reflexiva – marca vincada, pessoal e intransmissível do autor –, buscando instigar uma mudança de perspectiva no leitor mais do que demonstrar ou ter a presunção de se constituir como tese científica formal.