
Não há tragédia mais silenciosa do que enganar a si mesmo ao contentar-se com a superficialidade das coisas.
É a chamada “cegueira voluntária”: ver sem enxergar, tocar sem sentir, viver sem verdadeiramente experimentar…
Tudo o que existe guarda uma profundidade que não se revela aos "afobados" e "aprisionados à matéria".
Um texto sagrado, um olhar demorado, um beijo apaixonado ou uma despedida de alguém carregam universos inteiros sob aquilo que os olhos alcançam.
A realidade é sempre mastodonticamente maior do que sua aparência deixa transparecer.
Quem escolhe viver apenas na "superfície e espuma" perde o encontro com a beleza mais autêntica da existência.
Não apenas a beleza da alegria, mas também a da dor, pois que há uma estranha nobreza no sofrimento quando ele é atravessado e superado com consciência;
Uma estética sublime que transforma feridas em sabedoria e lágrimas em compreensão.
Quem deseja compreender a vida precisa atravessar não apenas a beleza, mas também as próprias contradições.
Precisa aceitar que a luz e a sombra coexistem na mesma alma, e que o crescimento nasce justamente da tensão entre aquilo que somos e aquilo que somos chamados a ser e a fazer.
A vida não entrega seus tesouros aos distraídos.
Ela exige silêncio, contemplação e coragem.
Coragem para descer às próprias profundezas onde habitam tanto os monstros quanto as pérolas da alma.
Viver com robustez e substância é aprender a caminhar entre a prosa e a poesia, entre a razão e o mistério, entre a matéria e o espiritual, entre o manifesto e o oculto, pois que a existência encontra sua plenitude não quando acumulamos respostas daquilo que enxergamos à nossa volta, mas quando desenvolvemos a sensibilidade necessária para perceber a beleza oculta em todas as coisas, circunstâncias e lugares.
Eco