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OS NOVOS FARÓIS DA DESUMANIDADE

Quando os holofotes se apagam, resta apenas o legado

Hermínio Naddeo
Por: Hermínio Naddeo Fonte: Opinião
03/06/2026 às 18h18
OS NOVOS FARÓIS DA DESUMANIDADE
Imagem IA

A humanidade foi moldada por homens que criaram religiões, fundaram filosofias, inventaram a imprensa, formularam as leis da física, conceberam a democracia liberal, revolucionaram a economia ou mudaram a compreensão da própria vida. Diante desse panteão histórico, não é apenas curioso – chega a ser ridículo – assistir a dois ministros do STF em um seminário (na verdade, um ambiente onde o que acontece mesmo são conchavos e circulação de influência e interesses longe dos holofotes) em Lisboa, discutindo a regulação de redes sociais como se estivessem reunidos para redefinir os rumos da civilização humana.

Os verdadeiros faróis da humanidade não anunciaram sua própria importância. A História encarregou-se disso. O problema dos autoproclamados faróis é que frequentemente confundem o brilho emprestado pelos holofotes da televisão com a luz própria daqueles que realmente iluminaram a humanidade. Que moral têm Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes para dizer ao mundo o que é certo ou errado? Já não bastava passarmos vergonha com Lula querendo dar lição de moral ao mundo em seus discursos construídos em cima de mentiras, números inventados e soluções que nunca conseguiu implementar?

OS GIGANTES E OS ASPIRANTES

A história da humanidade reúne nomes como Hamurábi, Sólon, Cícero, Justiniano I, Thomas Aquinas, William Blackstone, Montesquieu, Cesare Beccaria, John Marshall, Confúcio, Sócrates, Aristóteles, Jesus, Adam Smith, Darwin, Napoleão, Thomas Jefferson e até mesmo Karl Marx, figuras cujas ideias e ações alteraram profundamente o rumo da civilização. Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes não estão nem aos pés de juristas brasileiros como José Bonifácio de Andrada e Silva, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Teixeira de Freitas, Clóvis Beviláqua, Pontes de Miranda, Pedro Lessa, Victor Nunes Leal, Miguel Reale ou Raymundo Faoro.

O nível de pretensão desses ministros revela um apego doentio ao poder, a ponto de perderem completamente a noção de quem são na fila do pão. Dar ordens ilegais e inconstitucionais no Brasil já não basta para esses dois. Acreditam que um seminário tupiniquim é uma assembleia da ONU e que suas falas não apenas reverberarão pelo mundo, como serão ouvidas e adotadas como se tivessem descoberto a salvação para a humanidade.

A DIFERENÇA ENTRE PODER E LEGADO

A tragédia dos projetos messiânicos é sempre a mesma: seus autores acreditam estar escrevendo um novo capítulo da civilização quando, na verdade, estão apenas reagindo aos acontecimentos do seu tempo. Hamurábi deixou um código. Justiniano consolidou o Direito Romano. Montesquieu formulou a separação dos poderes. Beccaria ajudou a humanizar o direito penal. Rui Barbosa legou uma defesa intransigente das garantias individuais. Nenhum deles precisou reunir jornalistas, empresários, políticos e magistrados em hotéis luxuosos para convencer a humanidade de sua importância.

A História possui um critério implacável para distinguir os gigantes dos vaidosos: o tempo. Quando os aplausos cessam, quando os cargos terminam, quando os jornais envelhecem e viram papel amarelado, resta apenas a obra. É ela que decide quem será lembrado e quem ocupará apenas uma nota de rodapé nos livros de História.

QUANDO OS HOLOFOTES SE APAGAM

Por isso causa estranheza assistir a ministros brasileiros falando sobre os destinos da democracia mundial como se fossem herdeiros intelectuais de Montesquieu ou Madison. O debate sobre redes sociais é legítimo. O que não é legítimo é a pretensão de transformar opiniões circunstanciais em verdades universais, nem apresentar soluções locais como se fossem mandamentos destinados a toda a humanidade.

A liberdade de expressão, afinal, não nasceu em Lisboa em 2026. Ela foi conquistada ao longo de séculos por homens que enfrentaram reis, imperadores, ditadores, censores e inquisidores. Cada geração produziu seus próprios argumentos para restringi-la em nome da ordem, da segurança, da estabilidade ou do bem comum. O curioso é que esses argumentos mudam de roupa, mas mudam raramente de essência.

Talvez o maior erro dos autoproclamados faróis seja imaginar que a História precisa deles. A história não precisa. Ela seguirá seu curso indiferente às vaidades de ocasião. E, quando os holofotes finalmente se apagarem, restará apenas a pergunta que sempre separou os gigantes dos meramente influentes: o que exatamente foi construído para permanecer?

 

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Mônica Há 4 dias Campinas SPExcelente artigo! Obrigada!
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Hermínio Naddeo
Hermínio Naddeo
Escritor/Jornalista, mestrado em palpitologia, doutorado em opinologia, pós-doutorado em falastronismo.

Administrador, publicitário, jornalista, com quase duas décadas de atuação na cobertura política e análise de conjuntura nacional. Especializado em leitura estratégica de cenários, mantém uma linha editorial independente e de viés conservador, com foco em liberdade, soberania e responsabilidade institucional. É colunista do site No Ponto do Fato, onde assina artigos que aliam crítica firme, ironia pontual e compromisso com a verdade. Registro profissional MT 22619/MG.
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