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POR QUE A DIREITA PAULISTA PODE PERDER UMA CADEIRA NO SENADO?

A disputa por duas vagas, a fragmentação do campo conservador e a lógica própria da eleição para o Senado em 2026

Alana Figueiredo
Por: Alana Figueiredo
28/04/2026 às 16h03
POR QUE A DIREITA PAULISTA PODE PERDER UMA CADEIRA NO SENADO?
Imagem gerada por IA

São Paulo é lido como um estado inclinado à direita. Em 2022, Tarcísio de Freitas venceu Fernando Haddad no segundo turno para o governo paulista com pouco mais de 55% dos votos válidos, e o mapa municipal também reforçou essa percepção: no primeiro turno, Tarcísio liderou em 499 municípios (de 645 do estado todo), enquanto Haddad ficou à frente em apenas 91. (CNN Brasil)

Essa memória política é recente. Por isso, quando uma pesquisa para o Senado indica nomes de centro-esquerda e esquerda competitivos em São Paulo, a reação imediata costuma ser de espanto. Mas esse espanto indica um erro de leitura.

A eleição para o Senado não obedece à mesma lógica da eleição para governador.

Na disputa deste ano, estão em jogo duas cadeiras por estado. Isso significa que o eleitor pode votar em dois nomes para senador. A pesquisa Atlas/Estadão divulgada em 31 de março mostra exatamente isso: Simone Tebet aparece com 22,6%, Guilherme Derrite com 22,0% e Marina Silva com 19,6%. Em um cenário sem Tebet, Derrite marca 22,1%, Haddad 21,8% e Marina 19,7%. Além disso, o levantamento ouviu 2.254 eleitores em São Paulo, entre 24 e 27 de março, com margem de erro de 2 pontos percentuais. (CNN Brasil)

O dado importante é que há espaço aberto para uma composição eleitoral que não reproduz automaticamente a força majoritária da direita em São Paulo.

E isso acontece por três razões.

1. Duas vagas mudam o comportamento do eleitor

Quando há duas cadeiras em disputa, o eleitor não precisa concentrar tudo em um único nome. Ele pode distribuir. Pode votar em um nome mais alinhado ideologicamente e outro mais palatável, mais moderado ou mais conhecido nacionalmente.

Essa lógica favorece candidaturas de centro, centro-esquerda ou perfil transversal, especialmente quando elas conseguem parecer “seguras” para um eleitor que não quer entregar os dois votos ao mesmo campo.

É exatamente por isso que a disputa para o Senado não pode ser lida com a mesma lente usada para o governo estadual.

2. A direita pode ter maioria política e, ainda assim, falhar na ocupação institucional

São Paulo pode continuar majoritariamente inclinado à direita e, ao mesmo tempo, ver uma cadeira escapar.

Isso porque maioria social e eleitoral não se converte automaticamente em maioria institucional.

A conversão depende de estratégia, coordenação e concentração de voto.

Quando um campo político chega pulverizado, ele reduz sua própria eficiência. E esse parece ser o risco da direita paulista neste momento. O mesmo levantamento que mostra Derrite competitivo também registra nomes como Ricardo Salles, Mello Araújo e, em outro cenário, Mário Frias, o que indica dispersão de voto no mesmo espaço político. (CNN Brasil)

A consequência é que um campo que deveria ocupar com folga ao menos uma cadeira passa a brigar internamente por espaço — e abre margem para que o segundo assento seja capturado por outro bloco.

3. O Senado mede mais organização do que preferência

A eleição majoritária para governador mede preferência mais concentrada. O Senado, especialmente com duas vagas, mede capacidade de organização.

Há uma diferença importante entre ter um eleitorado numeroso e conseguir traduzir esse eleitorado em desenho institucional.

A disputa para o Senado expõe justamente essa diferença.

Se a direita paulista tem base social forte, mas não consegue transformar isso em concentração suficiente para duas cadeiras, o problema já não está no eleitorado. Está na estratégia.

O erro está em achar que a cadeira “está para a esquerda”. O que os números mostram é um cenário em que a direita corre o risco de entregar uma das duas cadeiras por fragmentação, enquanto nomes de centro e centro-esquerda avançam com mais eficiência sobre o espaço disponível. (CNN Brasil)

Essa diferença é importante porque muda completamente a interpretação. Não estamos falando, necessariamente, de uma mudança ideológica do eleitor paulista.

Estamos falando da forma como regras eleitorais, número de vagas e dispersão de candidaturas produzem resultados.

Política real funciona de forma menos intuitiva.

A cadeira não vai automaticamente para quem tem mais identidade com o estado. Vai para quem organiza melhor seu campo, concentra melhor seu voto e compreende a lógica da disputa.

O Senado, nesse sentido, é menos espelho de preferência e mais teste de maturidade estratégica, ou seja, exige mais inteligência política do que discurso.

São Paulo pode continuar inclinado à direita e, ainda assim, entregar uma cadeira ao campo adversário.

Isso não aponta necessariamente para mudança de convicção do eleitorado, mas aponta para falha de estratégia.

No fim, a disputa pelo Senado premia organização.

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Alana Figueiredo
Alana Figueiredo
Engenheira com MBA em Gestão de Projetos, possui experiência no setor de agrárias e se destaca por suas habilidades de escrita e comunicação. Ao longo de sua carreira, desenvolveu um profundo interesse por temas culturais e políticos, que agora compartilha como colunista. Tem visão crítica e informada, sempre com um olhar atento às dinâmicas sociais e econômicas que moldam a sociedade.
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