
Achávamos que isso tinha ficado para trás. Que a “carteirada” — aquela autoridade que não se explica, apenas se impõe — estava em declínio. Mas o Brasil tratou de nos lembrar que certos vícios não desaparecem: apenas mudam de endereço.
Hoje, a carteirada não vem de um balcão de repartição. Vem do topo do poder.
O avanço desse modelo ganhou forma quando o Supremo Tribunal Federal decidiu que poderia ir além de julgar — e passou a agir como protagonista político. O primeiro grande sinal veio quando a Corte barrou a nomeação de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal, decisão que atingiu diretamente um ato do então presidente Jair Bolsonaro. Não se discutia mais apenas legalidade: discutia-se intenção. E, a partir daí, abriu-se uma porta difícil de fechar.
O contraste se torna inevitável quando se observa que, posteriormente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou para a direção da Polícia Federal o delegado Andrei Rodrigues, cuja relação pessoal com ele era amplamente conhecida — inclusive tendo atuado em sua segurança. Ainda assim, não houve reação semelhante do Supremo. A pergunta que fica não é jurídica, mas institucional: por que, em um caso, a relação foi suficiente para impedir a nomeação, e no outro, não?
Pouco antes, já havia sido criado dentro do próprio tribunal o Inquérito das Fake News — um instrumento que rompeu com o desenho clássico do sistema judicial brasileiro. Nele, o Supremo acumulou funções: investigou, acusou e julgou. Tudo em nome de se proteger.
O problema é que, quando uma instituição passa a concentrar poderes para se defender, ela deixa de ser apenas guardiã — e passa a ser parte interessada.
Os efeitos vieram rápido. O caso de Daniel Silveira marcou um novo patamar: prisão, condenação e confronto direto entre Poderes. O nome de Allan dos Santos entrou na mesma lógica, com medidas que ultrapassaram fronteiras e levantaram dúvidas sobre alcance e proporcionalidade.
Mas é justamente aí que mora o risco. Medidas excepcionais, quando se tornam rotina, deixam de ser exceção — e passam a ser método.
Nesse contexto, chama atenção também a contratação, pelo próprio Supremo, de serviços para monitoramento de redes sociais, com o objetivo de acompanhar menções à instituição e a seus ministros. A iniciativa é defendida como mecanismo de proteção institucional em um ambiente digital hostil. Mas, para muitos, ela reforça a percepção de um poder que não apenas julga, mas também observa, reage e se antecipa ao discurso público — um movimento delicado em qualquer democracia.
Os eventos de Atos de 8 de janeiro de 2023 exigiam resposta?. Mas a resposta adotada — com prisões em massa, questionamentos sobre individualização de condutas, longos períodos sem julgamento e a seguir julgamento de cidadãos comuns sem foro privilegiado pelo próprio STF, eliminando o juiz natural e a possibilidade de duplo grau de jusridição, deixando os acusados sem ter a quem recorrer — reacendeu um debate incômodo: até onde vai a defesa da democracia antes de se transformar em algo que se parece com o seu oposto?
Durante a Operação Lava Jato, ministros do próprio Supremo — com destaque para Gilmar Mendes — criticaram duramente o uso de prisões prolongadas e de medidas consideradas “excepcionais” por magistrados como Sergio Moro. O discurso era claro: o combate ao crime não pode atropelar garantias.
Anos depois, diante de outro cenário político, o mesmo tipo de instrumento passou a ser tolerado — quando não defendido — por integrantes da Corte, como Alexandre de Moraes.
A pergunta é inevitável: o que mudou? A Constituição — ou o contexto?
O ambiente se torna ainda mais sensível quando críticas ao próprio Supremo passam a ser respondidas com elevação de tom. Declarações e movimentos envolvendo nomes como Romeu Zema e Alessandro Vieira mostram que o espaço para questionamento institucional parece cada vez mais estreito — e mais arriscado.
Some-se a isso reportagens e debates recentes sobre relações e interesses no entorno de ministros, incluindo menções ao banco Master, e temos um cenário em que a confiança pública deixa de ser um dado e passa a ser um problema.
Quando o Supremo amplia seus próprios limites, redefine regras e reage de forma dura a críticas, ele deixa de ser apenas árbitro. Passa a ser jogador — e, em alguns momentos, o próprio juiz de suas ações.
E é exatamente aí que a velha frase brasileira ganha nova vida. Porque, no fim, não se trata mais de lei, de processo ou de princípio.
Trata-se de poder. E, diante dele, a pergunta volta — mais atual do que nunca:
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