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Uma fé sem território: os bahá’ís, o exílio e a ideia radical de humanidade

Nascida na perseguição, espalhada pelo mundo e sustentada por uma convicção simples: a humanidade é uma só.

Hermes Magnus
Por: Hermes Magnus
20/01/2026 às 23h37
Uma fé sem território: os bahá’ís, o exílio e a ideia radical de humanidade
IA - HM

Há religiões que surgem amparadas por impérios, tronos e exércitos. Outras nascem em circunstâncias menos solenes: prisões, exílios, decretos de morte. A Fé Bahá’í pertence a este segundo grupo — e talvez seja justamente por isso que tenha desenvolvido uma característica rara no mundo religioso: a capacidade de existir sem território, sem poder e sem inimigos declarados.

Fundada no século XIX, na antiga Pérsia, por Bahá’u’lláh, a Fé Bahá’í nunca se propôs a substituir religiões nem a disputar hegemonias espirituais. Pelo contrário. Ela reconhece Moisés, Jesus, Maomé, Buda, Krishna como expressões legítimas de uma mesma história espiritual da humanidade. Em vez de “ou”, propõe “e”. Em vez de exclusão, continuidade.

Em um mundo viciado em trincheiras identitárias, isso soa quase escandaloso.

No Irã contemporâneo, no entanto, essa visão foi considerada intolerável. Após a Revolução Islâmica de 1979, a Fé Bahá’í deixou de ser apenas uma religião não reconhecida e passou a ser tratada como um problema de Estado. Ser bahá’í tornou-se, na prática, um crime silencioso. Não há leis que ordenem explicitamente a erradicação da comunidade, mas há políticas cuidadosamente desenhadas para impedir que ela exista de forma digna.

Bahá’ís são impedidos de ingressar em universidades, excluídos do serviço público, têm empresas fechadas, propriedades confiscadas, cemitérios destruídos. Casamentos não são reconhecidos. Prisões arbitrárias tornaram-se rotina. Um memorando estatal dos anos 1990 foi explícito ao orientar que a comunidade deveria ser tolerada apenas enquanto não prosperasse.

Diante disso, muitos não tiveram escolha senão partir.

E foi assim que a Fé Bahá’í — paradoxalmente nascida no Irã — passou a florescer fora dele.

Hoje, os bahá’ís estão espalhados pelo mundo inteiro. Não como resultado de um projeto missionário agressivo, mas como consequência direta da perseguição. A diáspora tornou-se destino — e, aos poucos, também missão.

No Canadá, formou-se uma das comunidades bahá’ís mais organizadas e vibrantes fora do Oriente Médio. Famílias inteiras vindas do Irã encontraram ali não apenas refúgio, mas cidadania plena, acesso à educação e liberdade religiosa real. O país tornou-se um polo natural para uma fé que valoriza pluralismo, diálogo e instituições civis.

Na Europa, comunidades bahá’ís se estabeleceram no Reino Unido, na Alemanha, na França, nos países escandinavos e no Benelux. Discretos, quase sempre longe dos holofotes, participam de iniciativas educacionais, projetos comunitários e espaços de diálogo inter-religioso. Em sociedades cansadas de radicalismos, a linguagem bahá’í — serena, inclusiva, não confrontacional — encontrou escuta.

O Brasil é um caso particularmente interessante. Talvez por sua tradição de pluralismo religioso e espiritualidade aberta, a Fé Bahá’í encontrou ali um terreno fértil. Comunidades organizadas existem em diversas cidades, atuando de forma silenciosa, sem proselitismo, sem disputa, sem a ansiedade de convencer. Apenas convivendo.

A presença bahá’í também se estende pelos Estados Unidos, Austrália, África e América Latina. Em todos os lugares, repete-se o mesmo padrão curioso: baixo ruído, alta coerência ética.

Talvez o aspecto mais desconcertante da Fé Bahá’í seja sua recusa absoluta em transformar a perseguição em ódio. Não há teologias da vingança, não há discursos de revanche, não há chamadas à retaliação. Há denúncia — firme, documentada, persistente —, mas não há rancor como método.

É uma fé que não compete por poder. Não tenta capturar o Estado. Não se oferece como solução política. Limita-se a afirmar, com uma insistência quase teimosa, que a humanidade é uma só e que nenhum futuro viável pode ser construído sobre a negação dessa ideia.

Talvez seja por isso que regimes autoritários a temam tanto.

No fim, a história da Fé Bahá’í não é apenas a história de uma religião perseguida, mas de uma comunidade que transformou o exílio em vocação, a dispersão em linguagem e a sobrevivência em testemunho. Onde chegou, não levou bandeiras nem ressentimentos. Levou princípios.

E, em tempos tão barulhentos, isso é — sinceramente — uma forma rara de beleza.

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Hermes Magnus
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Olá, sou conhecido como o denunciante que fez os políticos verem o sol nascer quadrado pela primeira vez na história do Brasil! Com um apito na mão e um senso de humor inabalável, estou por aqui para garantir que a verdade sempre encontre seu caminho, mesmo que isso signifique abalar algumas estruturas. Lembre-se, a transparência é o melhor disfarce!
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