
(Terapia de casal)
Eu já tenho bastante janeiros de vida pessoal e uns 17 anos aconselhando homens e mulheres, casados e solteiros. E o que eu mais vejo, independentemente da cultura, religião ou situação financeira, são fins de relacionamentos.
Muitos, consegui ajudar a recuperar, outros infelizmente, não. A verdade é que há um grave distúrbio na sociedade, no intuito de atribuir pechas aos homens e também às mulheres.
Existe ainda o hábito de atribuir esse sentimento ou a paixão (amor) por outra pessoa ao mundo espiritual (aspecto religioso). Mas a verdade é que o problema é bem mais grave: ninguém está isento de se apaixonar. Nenhuma barreira moral pode bloquear o que flui naturalmente. Pode-se fugir, fingir, lutar, mas não se evita sentir.

O mecanismo emocional principal que ocorre é que a paixão desperta uma parte "viva" que ninguém sabia que estava adormecida.
Muitos homens (e mulheres) vivem anos em relacionamentos estáveis, confortáveis, social e religiosamente aprovados — mas que não geram mais faísca verdadeira. Quando surge alguém que desperta desejo intenso, sensação de adrenalina, paz, vulnerabilidade, sensação de "perigo bom", isso ativa um sistema de recompensa no cérebro muito forte (dopamina, ocitocina em níveis altos). É como se o corpo dissesse: "Isso aqui é vida de verdade".

O problema é que essa sensação é tão forte que ele começa a sentir que sem essa pessoa, a vida perde a cor. Daí vem a tristeza profunda quando a relação não se concretiza.
Aí vira uma batalha emocional:
Medo de perder o "seguro" contra o medo de perder o "vivo". Curioso: há medo dos dois lados.
A pessoa fica presa em duas perdas potenciais: Perder o relacionamento estável → medo de instabilidade, julgamento da família/sociedade, mudança de status, solidão "prática".
Perder a "nova oportunidade" do amor → medo de nunca mais sentir aquilo de novo, de "morrer por dentro".
Esse conflito gera paralisia.
A pessoa não consegue romper com o antigo porque o risco parece concreto e imediato. Mas também não consegue abandonar o novo porque emocionalmente já virou o centro da existência.
Ai o cérebro cria a idealização como mecanismo de defesa.
Quando não pode ter a pessoa na realidade, o cérebro começa a idealizá-la cada vez mais. Ela vira símbolo de tudo o que falta na vida dele: liberdade, paixão, vibração intensidade e autenticidade.
E se começa a rever fotos antigas obsessivamente, reler mensagens, fantasiar cenários "e se", sentir saudade física (o peito dói mesmo). É uma forma de manter a pessoa "viva" dentro de si, porque soltar dói demais
Chega então a fase da culpa, da vergonha e da auto-sabotagem.
Muitos homens nessa posição sentem muita culpa por "trair" (mesmo que emocionalmente) a parceira oficial, mas ao mesmo tempo tem raiva dela por " ela não ser suficiente ou não conseguir fazê-lo sentir o mesmo". Isso vira um ciclo tóxico: Ele se pune ficando no relacionamento errado. Agride psicologicamente, cala-se, encontra defeito em tudo.
Ele também se pune não indo atrás do que realmente quer.
Resultado: tristeza crônica, frustração, sensação de estar traindo a si mesmo, baixa autoestima disfarçada de "sou um cara responsável".
Por que é tão difícil romper o antigo relacionamento?
Inércia emocional — anos investidos criam um vínculo de hábito, não necessariamente de amor profundo.
Medo do vazio — "E se eu largar tudo e depois descobrir que era só paixão passageira?"
Pressão externa — família, amigos, status social.
Medo de machucar — muitos homens carregam a ideia de que "homem de verdade não abandona", mesmo que ficar seja pior a longo prazo.
E o que isso tudo gera no íntimo?
Uma tristeza que parece não ter fim porque é dupla: Luto pela perda da pessoa amada.
Luto pela versão de si mesmo que ele poderia ter sido se tivesse tido coragem.
É como carregar um buraco no peito que nenhum outro relacionamento preenche totalmente, porque o que foi vivido ali foi muito intenso e nunca resolvido.
Se isso está ecoando muito forte na sua vida, saiba que não é fraqueza — é humano. O mais difícil (e libertador) é perceber que ficar preso nessa dualidade machuca todo mundo envolvido, inclusive você mesmo.
Às vezes o ato mais corajoso não é "escolher a paixão", nem "ficar pelo dever", mas escolher ser honesto consigo e com as pessoas — mesmo que isso signifique dor temporária para ganhar clareza e liberdade depois.
Se você ou seu cônjuge estiverem atravessando situação semelhante, me procure.
Você não está sozinho (a).
Abraço forte.
Sérgio Júnior
www.sergiojunior.com