
Irã, Venezuela, Rússia — o que o Brasil tem a ver com isso?
Nos últimos dias, o noticiário mundial passou a tratar da instabilidade no regime iraniano. Essa tratativa expôs as ligações entre esses países que eram sempre uma notícia no rodapé de grandes jornais. Agora estão todos em alerta, pois ficou claro que o sistema internacional entrou em processo de reorganização.
Regimes autoritários e ditaduras se sustentam por meio de redes políticas e ideológicas interdependentes. Quando uns dos pontos de conexão dessa rede demonstra fragilidade, o custo político, ideológico e diplomático para seus aliados aumenta. Imaginem uma rede de pesca, se você tira um nó, todos os demais ficam expostos, aqui é a mesma coisa, só que aqui, cada “nó” tem um papel diferente.
O Irã atua como nó ideológico de oposição ao Ocidente, especialmente aos Estados Unidos. Sua força é a capacidade de articular alianças com regimes que compartilham um mesmo projeto geopolítico de enfrentamento e destruição da cultura ocidental. Quando essa conexão vacila, a sustentação de toda a rede enfraquece.
A Venezuela exerce um papel complementar. Por anos, o país funcionou como nó dessa rede na América Latina. Desde o chavismo, construiu alianças com Irã e Rússia baseadas na oposição à hegemonia americana, na cooperação energética e no apoio político em organismos multilaterais.
A crise profunda do regime venezuelano — consolidada pela apreensão de Maduro — enfraquece mais um nó e reduz a influência desses atores no hemisfério ocidental.
A Rússia atua como retaguarda desses regimes pressionados. Ao sustentar aliados fragilizados (pontas soltas), o país preserva relevância global e amplia sua capacidade de influência no sistema internacional.
É nesse ponto que o Brasil deixa de ser espectador.
O governo brasileiro condenou explicitamente a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela como violação da soberania e do direito internacional. Essa posição oficial foi repetida em declarações tanto do presidente quanto de representantes do país na ONU, reforçando um alinhamento diplomático com regimes autoritários — ainda que sob o disfarce retórico de ‘defesa da paz’ e ‘multilateralismo’. Esse movimento atrai atenção internacional.
Os Estados Unidos acompanham atentamente como o Brasil tem reagido à crise venezuelana; como se posiciona em organismos multilaterais e como contribui para a legitimação de regimes autoritários.
O mecanismo em jogo são os alinhamentos de interesses que geram custos crescentes quando as conexões dessas redes entram em crise. Este comportamento amplia vulnerabilidades institucionais (além das que já temos internamente, agora temos externamente).
Essa vulnerabilidade se manifesta também na recusa de Brasília em classificar facções criminosas como grupos terroristas. A escolha por uma abordagem estritamente jurídica é interpretada no exterior como relutância política em enfrentar estruturas que operam com domínio territorial, financiamento ilícito e uso sistemático da violência. Esse posicionamento amplia a distância entre o Brasil e países democráticos e, no mínimo, reforça a percepção de tolerância institucional ao crime e às ditaduras.
Diante desse cenário, a reação que se esperava de Brasília é: a defesa objetiva de princípios, o distanciamento explícito de regimes ditatoriais e o reposicionamento diplomático capaz de assegurar a previsibilidade e a credibilidade internacional.
Quando regimes políticos entram em crise, os países periféricos — ainda que relevantes — são chamados a definir com mais precisão onde pisam. O Brasil está sendo observado justamente por sua relevância.
Autoridade internacional se constrói com soberania, que é a capacidade de decidir, controlar o próprio território e assumir responsabilidades. Ao transformar soberania em retórica diplomática para justificar alinhamentos ideológicos, o Planalto corrói a autoridade que o Brasil construiu ao longo de décadas. E corroer é algo que este governo saber fazer muito bem.