
Há um princípio quase didático no universo dos seguros: nas perdas parciais aplica-se uma franquia, mas nas perdas totais não há franquia alguma. A lógica é cristalina — se o bem foi destruído por inteiro, o segurado não pode ser penalizado com um acréscimo de sofrimento. Mas se apenas um fragmento foi danificado, é justo que ele arque com uma fatia do prejuízo. Simples, razoável, até elegante.
Pois bem: transportemos essa lógica para os “atônitos” de Brasília. Alguns, embalados por fanáticos de redes sociais, youtubers pseudo-apocalípticos e procuradores políticos de generais encastelados — como Ana Priscila Azevedo, sombra do general Mourão, aquele que foi defenestrado do Comando Militar do Sul por falar demais em uma loja maçônica e, desde então, delega sua ousadia a terceiros. Um general que não vai à linha de frente, mas manda proxies — não um estrategista, mas um covarde com assessoria.
E eis que, em janeiro, esses desorientados invadiram palácios: alguns depredaram, outros apenas se refugiaram como se o Congresso fosse um abrigo comunitário. Houve de tudo: o relógio de Balthazar Martinot, presenteado a D. João VI, foi destruído; móveis históricos foram dilacerados; e até a cena patética de um sujeito se instalando na mesa de um ministro do Supremo, como se aquilo fosse uma piada em cadeia nacional. Foi grotesco, mas sobretudo revelador de uma gente sem noção, mais caricatural do que revolucionária.
O sistema, no entanto, célere e punitivo, lançou-lhes a conta como se cada estilhaço fosse a implosão da República. Contudo, o país sofreu apenas um sinistro parcial — nada de instituições abatidas, nenhum golpe consumado. E, ainda assim, a franquia está custando caro aos desavisados, muitos sem uniforme, sem patente — apenas com um olhar perdido em meio a vidros quebrados.
Porque se a República tivesse sido realmente implodida — uma perda total — talvez, paradoxalmente, não houvesse franquia alguma: o custo seria socializado, o trauma histórico, e os generais, antes tímidos, talvez surgissem como salvadores da pátria. Mas como se tratou apenas de um vandalismo grotesco, a fatura sobrou para os que estavam no recinto errado, no momento errado, e — ainda pior — sem cláusula de proteção.
No fim, a lição é cruelmente irônica: em Brasília, como nas apólices de seguro, quem paga a franquia não costuma ser quem causou o sinistro, mas quem não tinha nem cobertura.