
Este artigo já se inicia parafraseando John Philpot Curran (1790), que disse:
“A condição sob a qual Deus concedeu a liberdade ao homem é a vigilância eterna...” (“The condition upon which God hath given liberty to man is eternal vigilance...”)
Iniciei desta forma porque, no artigo anterior, refleti sobre Deus como a verdade que sustenta toda a civilização. Agora, quero trazer a liberdade como prêmio para aqueles que estão pagando o alto preço da eterna vigilância.
É preciso nos perguntarmos: se Deus é a fonte da verdade, o que Ele espera de nós diante dessa verdade?
Em Cristianismo Puro e Simples (sim, novamente esse livro), C. S. Lewis escreve:
“Deus criou coisas que tinham livre-arbítrio. Isso significa criaturas que podem ir bem ou mal. [...] Por que, então, Deus deu a essas criaturas livre-arbítrio? Porque o livre-arbítrio, embora torne o mal possível, é também a única coisa que torna possível qualquer amor ou bondade ou alegria que valha a pena ter.”
Essa escolha divina é, talvez, a maior prova de dignidade que Deus nos conferiu. Ele não nos programou para obedecer — Ele nos chamou para escolher, inclusive obedecer.
A liberdade, portanto, não é um direito concedido pelo Estado, nem uma condição social. Liberdade é um chamado original. É a capacidade moral de responder à verdade de Deus — ou de rejeitá-la.
Por isso, a liberdade sempre carrega consigo o peso da responsabilidade.
Liberdade é uma palavra bonita. É citada por todos, defendida por muitos e compreendida por poucos.
Nas últimas décadas (diria que no último século, aqui no Brasil), o conceito de liberdade foi diluído, distorcido, capturado por discursos que a transformaram em sinônimo de impulsividade e ego.
E aqui vale resgatar dois conceitos já abordados no artigo anterior: hedonismo e narcisismo.
De acordo com o Google:
Hedonismo é uma doutrina filosófica que define o prazer como o bem supremo e o sentido da vida, sendo o objetivo principal da existência humana e a fonte da felicidade. O hedonismo define liberdade como a possibilidade de sentir prazer sem limites.
Narcisismo é um problema de saúde mental caracterizado por um senso de grandiosidade, necessidade excessiva de admiração e falta de empatia pelos outros. Pessoas com TPN superestimam suas próprias habilidades e conquistas, sentem-se superiores e, frequentemente, exploram e desvalorizam as realizações e sentimentos alheios.
Ambos são distorções. Porque o prazer sem freio escraviza. O ego inflado, isola.
Nenhuma dessas definições produz uma sociedade saudável. Nenhuma sustenta relacionamentos duradouros. Nenhuma forma cidadãos — forma apenas consumidores.
Ué... Se liberdade não é prazer deliberado e não é fazer o que quiser, então o que ela é?
Liberdade é a capacidade de escolher com consciência. É o reconhecimento de que nem tudo o que eu quero me faz bem, e nem tudo o que eu posso me convém. A verdadeira liberdade está no domínio de si, não na imposição sobre os outros. Está em agir com responsabilidade, não com impulsividade. E está, principalmente, na consciência de que toda escolha tem consequência — e que viver como se não tivesse não é liberdade, é negação da realidade.
A cultura ocidental só pôde se consolidar porque reconheceu que há algo acima do indivíduo e do Estado: um referencial maior que nos limita, nos orienta e nos julga.
Quando a verdade é subjetiva, a liberdade é impossível. É por isso que a liberdade sem verdade sempre escorrega para o caos — ou para a tirania. Quando cada um tem “a sua verdade”, quem tem mais poder decide qual delas prevalece. E quando o desejo de um se choca com o limite do outro, quem grita mais alto é quem vence.
Isso não é liberdade, é dominação. A liberdade verdadeira não pode existir onde o “eu” é absoluto.
Ela exige um referencial além do indivíduo — algo que defina o certo mesmo quando ninguém concorda, algo que limite o poder mesmo quando todos obedecem, algo que proteja o fraco mesmo quando o forte domina.
Esse referencial não é a maioria. Não é o Estado. Não é o algoritmo. É a verdade. E a verdade, por definição, não nasce do consenso — ela precede o consenso.
Foi essa convicção que fez da liberdade um valor civilizacional. E é o abandono dessa convicção que hoje ameaça a liberdade de todos.
Se queremos ser livres, precisamos reaprender a escolher. Escolher não com base no desejo, mas na verdade. Não com base na facilidade, mas na consciência.
Liberdade é um meio para construir, para servir e, sobretudo, para responder com integridade ao chamado da verdade.
E se não formos capazes de sustentá-la, outros estarão prontos para administrá-la por nós.