
Por muito tempo, o Brasil conviveu com uma espécie de aristocracia empresarial. Eram famílias que, por meio de grandes conglomerados, não apenas comandavam indústrias, mas também exerciam papel de mediação política. Gostando-se ou não desse poder concentrado, ele funcionava como contrapeso e como interlocução com o Estado.
Esse poder, porém, desapareceu. Não por acidente, mas por estratégia política e pelo avanço da globalização.
Companhias como Embraco, Ambev, BRF, Alpargatas, JBS, Gerdau, WEG, Marcopolo, Votorantim, CSN e Embraer nasceram como símbolos da industrialização brasileira. Mas ao longo das últimas décadas, seus controladores familiares foram perdendo relevância:
• Embraer: privatizada em 1994, com governo mantendo apenas golden share. Hoje a maioria do capital é estrangeira.
• CSN: entregue em 1993 ao grupo Steinbruch, ainda familiar, mas totalmente subordinada ao mercado financeiro global.
• Ambev: transformada em AB InBev, sob controle belga.
• Embraco: vendida à japonesa Nidec.
• BRF, Alpargatas, Marcopolo, Votorantim, Gerdau, WEG, JBS: continuam formalmente brasileiras, mas são empresas globais, com capital pulverizado e agendas ditadas por investidores internacionais.
O traço comum é que as famílias se tornaram ornamentais, incapazes de agir como protagonistas políticos.
A segunda perna dessa diluição veio da destruição dos fundos de pensão (Petros, Previ, Funcef, Postalis), que eram os grandes investidores institucionais do Brasil.
Por décadas, esses fundos garantiram uma presença nacional forte no capital das empresas. Mas, no Petrolão revelado pela Lava Jato, foram capturados por interesses partidários e usados para financiar corrupção e projetos políticos.
O resultado foi a quase falência dessas entidades e a liquidação de posições estratégicas em companhias brasileiras, muitas vezes a preços depreciados, abrindo espaço para fundos estrangeiros. Assim, o que antes era um instrumento de soberania econômica virou um canal de transferência de ativos nacionais ao capital global.
Esse processo não foi apenas econômico, foi também político e deliberado.
Os governos do PT compreenderam que o poder das famílias empresariais era um fator de incômodo. Eram empresários que observavam com atenção os planos de infraestrutura, as contas públicas, as escolhas estratégicas da economia. Essa vigilância era uma ameaça.
A solução encontrada foi enfraquecer sistematicamente esse empresariado:
• Apoiar a globalização de empresas nacionais, diluindo o poder das famílias em estruturas internacionais.
• Destabilizar os fundos de pensão, que eram o grande lastro de capital nacional.
• Amarrar as companhias a regras internacionais de compliance, transformando antigos barões da indústria em gestores obedientes às diretrizes globais.
O resultado foi o que se vê hoje: um empresariado brasileiro subordinado, que já não interfere, que já não pressiona, que já não exige reformas estruturais.
O Brasil perdeu, assim, sua burguesia nacional. O que resta são empresas globais que nasceram aqui, mas já não falam por aqui. Restam famílias que ainda aparecem nos conselhos, mas não decidem. Restam empresários menores, barulhentos, mas incapazes de influir em projetos de Estado.
As consequências são claras:
• Não existe mais pressão organizada por uma política industrial.
• Não há quem cobre um projeto nacional de desenvolvimento.
• O Estado opera isolado, sem um interlocutor econômico de peso.
O fim da burguesia nacional brasileira foi produto da globalização, da corrupção que destruiu fundos de pensão e de uma estratégia política intencional: neutralizar empresários incômodos para que não atravancassem os projetos de poder.
As empresas continuam existindo, muitas vezes maiores e mais lucrativas do que nunca. Mas sua alma, sua identidade e sua capacidade de interferência política deixaram de ser brasileiras.
No lugar da antiga aristocracia empresarial, restou um vazio histórico. E esse vazio ajuda a explicar por que o Brasil já não tem projeto de futuro.