
É claro que não há problema algum em movimentos de esquerda terem suas diretrizes. Aliás, é até nobre que sonhem, redijam manifestos e organizem cartilhas, ainda que pareçam saídas de uma assembleia de estudantes de primeiro ano com overdose de café frio. Isso é democracia: cada um tem direito de viajar na maionese da própria utopia.
O detalhe, e sempre há um detalhe, é que essas diretrizes precisam ser sustentáveis. Sim, porque até hoje ninguém conseguiu pagar conta de luz com discurso inflamado ou encher a geladeira com palavras de ordem. Mas o que a esquerda faz? Ao invés de encontrar um jeito de pôr a própria casa em ordem, terceiriza a fatura: que o Estado banque, que o contribuinte pague, que até o vizinho discordante seja obrigado a financiar a revolução de boutique. Democracia? Só se for aquela versão de rodoviária, em que todo mundo entra no ônibus sem passagem e espera que alguém lá na frente se vire com o cobrador.
E se for eleita, aí sim: o banquete está aberto. O problema é que em vez de encontrar meios inteligentes de gerir a máquina pública, a esquerda acha que basta bater no caixa eletrônico do Estado e pronto: sai dinheiro. Afinal, de onde vem a grana? Do céu? Da árvore mágica do Tesouro? Do Banco da Imaginação? Não: vem dos outros. E dura até onde o bolso alheio aguenta.
O resultado é previsível: políticas que só sobrevivem enquanto houver alguém para bancar. Diretrizes que morrem ao primeiro suspiro de realidade, como castelos de areia diante da maré. A esquerda não cai porque é perseguida, mas porque não sabe administrar nem a senha do Wi-Fi. E ainda assim insiste em abraçar causas que não se sustentam, empurrando o Estado para a beira do colapso econômico com a mesma convicção de quem acredita em unicórnio como meio de transporte oficial.
Eis aí o grande problema: a utopia é bonita no panfleto, rende aplauso em auditório e dá curtida nas redes. Mas quando chega a hora da conta, não há ironia que resolva: a esquerda é sempre generosa com o dinheiro dos outros. Porque, claro, com o próprio nunca é.