Quinta, 18 de Junho de 2026
11°C 21°C
São Paulo, SP

A INDÚSTRIA DE MÉDICOS CUBANOS PELO MUNDO

UMA “EXPORTAÇÃO” PECULIAR

Hermes Magnus
Por: Hermes Magnus
13/08/2025 às 20h07
A INDÚSTRIA DE MÉDICOS CUBANOS PELO MUNDO

Desde a década de 1960, Cuba construiu uma narrativa de potência médica, formando profissionais de saúde em larga escala e enviando-os para missões internacionais. O que começou como solidariedade ideológica durante a Guerra Fria, transformou-se nas últimas décadas em uma indústria estatal altamente lucrativa, que já chegou a ser a principal fonte de divisas do país, superando turismo, açúcar e níquel.

 

Estima-se que, em determinados anos, mais de 50 mil profissionais cubanos tenham trabalhado simultaneamente no exterior, em dezenas de países. O modelo é centralizado: os governos contratantes pagam diretamente ao Estado cubano, que então remunera — parcialmente — os médicos e demais integrantes das brigadas.

 

Como funciona o negócio

 

O mecanismo segue um padrão relativamente uniforme:

1.Acordo bilateral ou via organismo internacional (como a Organização Pan-Americana da Saúde – OPAS/PAHO).

2.Pagamento: o país contratante paga a Cuba por cada profissional — valores que podem chegar a US$ 5.000 a US$ 10.000 por mês por médico.

3.Repasse ao profissional: o médico recebe, em geral, entre 10% e 25% desse valor, muitas vezes em moeda local ou conta controlada pelo governo.

4.Controle estatal: contratos incluem restrições à liberdade de movimento, retenção de passaportes e vigilância ideológica.

 

Cuba argumenta que esse arranjo financia seu sistema de saúde universal e garante atendimento em regiões pobres. Críticos — incluindo governos, ONGs e ex-integrantes das missões — chamam isso de trabalho forçado ou tráfico de mão de obra qualificada.

 

O mapa das missões (2005–2025)

 

Ao longo dos últimos 20 anos, a rede de “exportação médica” cubana alcançou todos os continentes. Eis alguns destinos confirmados:

•América Latina: Brasil (Mais Médicos), Venezuela (Barrio Adentro), México, Bolívia, Equador, El Salvador, Haiti.

•Caribe: Jamaica, Trinidad e Tobago, países da OECS (Antígua e Barbuda, Dominica, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, etc.).

•Europa: Itália (Lombardia, Calábria), Andorra, Portugal.

•África: Argélia, Angola, Quênia.

•Oriente Médio: Catar (hospital em Dukhan).

 

Muitas dessas missões foram ampliadas em momentos de crise sanitária — como durante a epidemia de cólera no Haiti ou a COVID-19 — e encerradas por razões políticas ou escândalos contratuais.

 

Controvérsias e sanções

 

Os Estados Unidos classificam o programa como exploração laboral e desde 2019 vêm impondo restrições de visto a autoridades cubanas envolvidas. Em agosto de 2025, Washington anunciou a ampliação dessa política para funcionários e intermediários de governos terceiros considerados cúmplices. Isso levanta questões incômodas para países que participaram do programa: haveria risco de sanções diplomáticas se forem comprovadas violações trabalhistas?

 

O debate esbarra em dados pouco transparentes: contratos raramente são públicos, e a avaliação das condições de trabalho é dificultada por acordos de confidencialidade e pela presença constante de supervisores cubanos junto às brigadas.

 

Entre diplomacia e negócio

 

Para Havana, as missões cumprem duplo papel: consolidar laços políticos e gerar receita. Para países receptores, é uma forma rápida de suprir carências médicas — muitas vezes em áreas rurais ou periféricas onde médicos locais não querem trabalhar. Para os críticos, é uma engrenagem de dependência e abuso que explora o idealismo e a formação dos profissionais cubanos.

 

O tema segue polarizado: cooperação solidária ou indústria de exportação de mão de obra?. A resposta depende não apenas de ideologia, mas da disposição de todos os envolvidos em garantir transparência contratual, liberdade individual e remuneração justa.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Hermes Magnus
Hermes Magnus
Olá, sou conhecido como o denunciante que fez os políticos verem o sol nascer quadrado pela primeira vez na história do Brasil! Com um apito na mão e um senso de humor inabalável, estou por aqui para garantir que a verdade sempre encontre seu caminho, mesmo que isso signifique abalar algumas estruturas. Lembre-se, a transparência é o melhor disfarce!
Ver notícias
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 -0,05%
Euro
R$ 5,87 -0,08%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 348,462,66 +0,21%
Ibovespa
168,453,94 pts -0.7%
Publicidade
Publicidade
Publicidade