
É a terceira vez que recorro a este título em um artigo. Questionei-me muito enquanto pensava nele. Falta de imaginação? Incapacidade para criar algo com o mesmo impacto? Resgate de uma chamada que foi bem recebida das outras duas vezes? Nada disso. A grande verdade é que a pocilga de Brasília tem muitos porcos, e toda vez que um deles estiver a caminho do abate, alguém dirá que todo porco sabe que vai morrer.
Se você nunca viu um porco sendo preparado para morrer, não recomendo a cena. É impossível não sentir pena. Logo que começam a raspar seus pelos, ele começa a gritar. Assim vai até o momento derradeiro. E ainda dizem que quanto mais dó se tem do animal, mais ele demora a morrer.
O que temos visto são porcos gritando enquanto seus pelos são raspados publicamente pela realidade. Desde o primeiro dia de janeiro de 2023, a certeza era de que o chiqueiro ficaria ainda mais fedido. E não deu outra. O mau cheiro e a lama se espalharam por instituições, antes consideradas asseadas. Fizeram da república uma pocilga, preservando a ração balanceada para si e deixando a lavagem para o resto do povo. Não por acaso, "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, foi comandada por porcos.
Foi necessária a ameaça de uma águia para criar desordem no chiqueiro. Porcos batendo uns nos outros, se ralando nas cercas, escorregando no mar de lama antes tão confortável e seguro. Mesmo assim, é difícil prever até quando teremos que aturá-los gritando, como se estivessem realmente no comando. E eles gritam, incomodam, até fingem que não é com eles, porque é gritando que porco sabe morrer.
Porém, queiram ou não, a desordem da república brasileira está com os dias contados. Uma nova ordem precisa e deve se estabelecer no Brasil. Mas não sairá barata para lado algum. Uma gripe suína contaminou muitos, e eles sabem que a sobrevivência de alguns depende do sacrifício de um ou mais deles. Por isso, os porcos estão gritando.
O voo da águia é poderoso. Suas grandes asas dão a ela o domínio do ar. E quando ela escolhe o alvo, com absoluta cautela e planejamento, o bote é certeiro, mesmo que a presa seja um porco escondido debaixo de uma toga. Basta sua sombra para causar medo. Não se via nada igual até então; a águia carrasca decidiu que não haveria pena para esse porco.
Ao contrário dos porcos reais, dos quais se diz que se aproveita tudo, até o rabo, da maior parte do atual rebanho de suínos, que ostentam cargos por nomeação ou mandatos eletivos, não se aproveita nada, muito menos o rabo. Porcos doentes são inúteis para a sociedade. Ainda que muitos deles se achem javalis, que comem lagostas e bebem vinhos premiados, não passam de porcos imundos.
Por mais que uma renovação de verdade seja feita nas próximas eleições — com o que sou muito pessimista no que diz respeito à Câmara dos Deputados — só no Senado Federal que uma higienização pode produzir mudanças significativas. Além da presidência, e talvez até mais que ela, as eleições para o Senado devem ser nosso grande foco: se mudamos o Senado a ponto de ele não chancelar mais as sandices que saem da Câmara, o Legislativo terá um equilíbrio de forças, que hoje é inexistente.
Não podemos nos assustar com os gritos. São altos, fortes, mas inúteis. Quando o porco chega no processo de abate, não tem mais volta.
Que possamos muito em breve parar de ouvir esses gritos e, em seu lugar, escutar diálogos coerentes com os ambientes nos quais acontecem. Necessitamos de um Legislativo imperativo, que volte a cuidar do Brasil em vez de só abanar o rabo para o Executivo e o Judiciário; de um Judiciário que volte a cuidar de leis em vez de falar de política e de interferir nos demais poderes; de um executivo ocupado por alguém, no mínimo, honesto. E de uma imprensa que volte a dar notícias em vez de produzir narrativas e tratar a política como novela — e que a novela, de verdade, pare de mentir e introduzir agendas que nada interessam ao povo e nada beneficiam o país.
O Brasil entrou em um novo momento, com o qual os porcos não se conformam. O povo aderiu a uma nova agenda, pede mudanças e já demonstrou que não aceita mais abrir mão dela. Só há um jeito de levar nosso país a um salto de qualidade, promovendo uma profunda ruptura com o sistema instalado, fechando a pocilga. Não há convivência possível entre uma agenda desenvolvimentista e o coronelismo suíno que ainda ocupa cargos que decidem o destino de milhões de pessoas.
O abatedouro é o único. E a gritaria é por isso.
Não importa o tamanho do porco. Ele grita quando sabe que vai morrer.