
Mais uma vez, preciso fazer um apelo — desta vez, falando de longe. Estou fora do país, exilado não por escolha, mas por necessidade. Por ter conhecido de perto as engrenagens podres que sustentam o poder. Por ter denunciado. Por ter pago o preço. E é justamente por isso que lhes escrevo, brasileiros que ainda estão aí, vivendo no meio desse processo, muitas vezes anestesiados pela rotina ou pela polarização fabricada.
Esqueçam Bolsonaro por um momento. Esqueçam Lula. Esqueçam os nomes e os slogans. Foquem no essencial: o Brasil está em risco. O que está sendo feito com o país não é um debate ideológico — é a desconstrução deliberada de qualquer estrutura institucional séria, em nome de uma nova forma de controle. O que se apresenta como Estado de Direito já não passa de uma encenação de legalidade.
Pensem no amanhã. Pensem nos seus filhos. Nos seus netos. Vocês têm real noção do que estão permitindo acontecer, ao ignorar ou normalizar esses desmandos? O silêncio, a omissão, o “não é comigo” são formas de aval. E o aval mais perigoso é sempre o que se dá em silêncio.
Sei do que falo. Conheci as vísceras do sistema, e sobrevivi. Estou aqui fora por isso. O que vejo daí — e não apenas vejo, mas estudo, comparo, ouço de outros que também partiram — é um país sendo engolido por uma guerra híbrida, cuidadosamente financiada e disfarçada de progresso, de justiça, de “salvação democrática”. Não se deixem enganar: quando dizem que estão salvando a democracia, perguntem-se — com quais métodos? Com quais garantias? Com que legitimidade?
Democracia verdadeira não se impõe por decreto, por censura, por tribunais ideologizados, por castas imunes à crítica. Democracia de verdade só existe quando o povo pode pensar, falar, divergir — sem medo de ser punido por isso. Hoje, essa liberdade está sendo cerceada passo a passo, com ares de normalidade.
A Argentina teve uma segunda chance. Os Estados Unidos, também. Mas não se acomodem diante da ideia de que o Brasil necessariamente terá essa oportunidade. A segunda chance só existe onde ainda há justiça verdadeira. E essa, infelizmente, já não se faz mais presente aí. Quando a justiça deixa de ser justiça e vira instrumento de controle, não há espaço para recomeços — só para submissão.
Não joguem fora tudo o que fizeram até aqui. Não entreguem sua dignidade, sua memória, sua luta. Não deixem que apaguem as linhas da história que vocês ajudaram a escrever. Ainda dá tempo — mas o tempo não espera.
Falo como exilado, mas principalmente como compatriota. Não sou melhor por estar fora, mas talvez veja com mais clareza por não estar dentro do redemoinho. Faço esse apelo porque ainda acredito que o Brasil pode ser salvo — mas não será salvo por quem hoje o governa, nem por quem o manipula por trás das cortinas. Será salvo se, e somente se, o povo abrir os olhos.
Com todo respeito, mas também com toda franqueza: enquanto houver tempo, haja.