
O Brasil está de volta ao mundo. É o que dizem por aí. Mas não se trata daquela volta altiva e soberana com que os sonhadores da política externa costumavam se embriagar. Nada disso. O Brasil está de volta ao mundo como um mascote de regimes decadentes, um bonequinho de pelúcia geopolítica carregado no colo por ditadores, ayatolás e coronéis socialistas com compulsão por censura. Um subalterno voluntário no clube dos que odeiam o Ocidente — mas adoram mandar os filhos estudarem em Londres.
Enquanto os Estados Unidos apertam as sanções, muitos se apressam em culpar Bolsonaro. Sim, ele é o bode expiatório universal da esquerda brasileira: os desastres climáticos, as variações do PIB, até a morte de galinhas em Pernambuco podem ser explicadas com um “culpa do Bozo”. Mas, por favor, sejamos honestos por cinco minutos. As retaliações internacionais não estão vindo porque Bolsonaro existiu. Estão vindo porque o Brasil — o Estado brasileiro, a máquina institucional, o Itamaraty, o Planalto, o Twitter do Lula — resolveu brincar de “aliado alternativo” dos inimigos da liberdade.
A lista é quase poética: Putin, Maduro, Xi Jinping, o Irã, a Nicarágua de Ortega e mais recentemente uma simpatia espontânea por organizações que tratam mulheres como propriedade e censuram o próprio oxigênio. E tudo isso sob a narrativa hipnótica de que estamos salvando a democracia. Sim, salvar a democracia com apoio do Irã é como proteger a infância com conselhos do Michael Jackson: tem alguma coisa fora da curva.
Mas o mais divertido — ou trágico, dependendo do humor — é ver a esquerda “sapatênis”, a gourmetizada, a limpinha, a progressista de Instagram e vinho orgânico, justificar tudo isso. Era essa turma que dizia “não podemos normalizar o autoritarismo” e hoje aplaude censura judicial, perseguição a jornalistas e acordos diplomáticos com teocracias. A régua moral é flexível como yoga.
No Brasil de hoje, se você soltar traficante com bíblia na mão, pintar a estátua do Borba Gato com batom, ou pedir censura ao seu desafeto político, está tudo bem. Desde que seja “do bem”. Desde que seja “antifascista”. Desde que a sua indignação venha com lacre e selo do STF.
E aqui está o ponto final do fio da navalha: não é sobre esquerda ou direita. É sobre sanidade. Pode pensar diferente, claro. Pode até defender o SUS, o MST, o samba-enredo do PSOL. Mas defender bandido em nome da democracia, isso não dá. A partir do momento em que se justifica censura para evitar o “discurso de ódio”, ou que se solta criminoso porque a cadeia “é racista”, o problema deixou de ser ideológico e passou a ser civilizacional.
O Brasil não virou Venezuela — ainda. Mas está flertando com o abismo, usando batom vermelho e bandeira do Irã na lapela. A diferença é que aqui o autoritarismo vem com likes, hashtags e entrevistas no Roda Viva.
E o mais irônico? Chamam isso de progresso. Chamam isso de reconstrução. O Brasil se reerguendo, dizem. Mas o que se ergue mesmo é uma estátua em homenagem à dissonância cognitiva — essa arte tão brasileira de se dizer pela liberdade enquanto se lambe a bota do tirano.
E tudo isso, claro, com muito bom senso. Porque aqui, como eu sempre digo, o limite é ele. Só que, infelizmente, bom senso por aqui virou item de luxo. E parece que foi sancionado também.