
Num país onde a Constituição virou um aplicativo de celular – que cada ministro do Supremo atualiza conforme o humor ou a conveniência do dia – é reconfortante saber que temos um guardião zeloso da língua portuguesa: o excelentíssimo Alexandre de Moraes, agora também promovido a intérprete oficial das metáforas nacionais.
Na audiência que mais pareceu uma esquete de sátira política do Monty Python, Aldo Rebelo – o sereno, o diplomático, o moderado, e pasmem: ex-comunista sem ficha suja – ousou cometer o mais abominável dos crimes: defender a polissemia da nossa língua. Disse que “colocar à disposição” poderia ser figura de linguagem. Uma heresia gramatical imperdoável diante de Sua Excelência, o Ministro de Todas as Coisas, que prontamente reagiu com a delicadeza de um inquisidor medieval: “Se o senhor não se comportar, será preso por desacato.”
Sim, senhoras e senhores, agora no Brasil não se prende só por golpe — prende-se por vírgula fora do lugar.
O mesmo tribunal que tolera contraditórios sem contraditório, inquéritos sem inquérito, e que jura de pés juntos combater “atos antidemocráticos” com métodos mais autocráticos que os do Erdogan, agora resolveu que o próximo inimigo da República é a gramática comparada.
Vale lembrar que não faz muito tempo, o grande jurista Ives Gandra da Silva Martins foi submetido a um processo de humilhação pública pelo Conselho de Ética da OAB – atualmente uma entidade doutrinada até a medula, rendida à narco-esquerda brasileira, aquela mistura inebriante de militância ideológica com financiamento ilícito. O homem, já idoso e doente, foi perseguido não por ilegalidade, mas por ousar pensar diferente da cartilha vigente.
Estamos diante de uma nova ordem hermenêutica: a interpretação oficial dos fatos, dos textos, das palavras e até dos tons de voz será exclusivamente determinada por ministros que flertam com o absolutismo togado. Afinal, por que parar no controle das redes sociais, da imprensa e dos parlamentares? Que venha a ortografia com tornozeleira eletrônica.
O Aldo Rebelo, serenamente, ainda tentou argumentar. Ainda acreditou que num tribunal se pode falar com lógica, razão, ou cultura. Coitado. Ele esqueceu que agora se interpreta “à disposição” como ameaça de tanques, e “estou frito” como confissão de crime.
Num país sério, isso viraria piada. No Brasil de hoje, virou rotina.
Então brindemos, caros leitores. Brindemos com ironia, porque é tudo o que nos resta. Se formos muito literais, corre-se o risco de sermos presos.