Segunda, 24 de Agosto de 2026
14°C 20°C
São Paulo, SP

D.PEDRO II DECAPITADO: O BRASIL E SEU DESDÉM PELA SUA PRÓPRIA HISTÓRIA

Um herói injustiçado

Sérgio Júnior
Por: Sérgio Júnior
03/03/2025 às 22h09 Atualizada em 04/03/2025 às 14h17
D.PEDRO II DECAPITADO: O BRASIL E SEU DESDÉM PELA SUA PRÓPRIA HISTÓRIA

D.PEDRO II DECAPITADO: O BRASIL E SEU DESDÉM PELA SUA PRÓPRIA HISTÓRIA 

 

Todo brasileiro certamente já ouviu a frase: 

" Somos o único país do mundo que rir da própria desgraça".

E esta é uma frase muito correta.

O brasileiro é provavelmente o único povo que gosta de rir da própria miséria. Este assunto não me é novo, pois trabalhei muito nisso para escrever 

"a cultura do deboche: destruidores de espelhos". 

A questão é, qual a razão disso?

Já me perguntei várias vezes, por qual razão algumas pessoas dizem com tanto orgulho :

"eu não preciso de herói", sendo que não há uma história de impacto se não houver um herói; ou por que muita gente só consegue enxergar defeitos em Neymar. 

Bem, um povo que desdenha ou menospreza sua própria história só pode sofrer de alienação coletiva, por desconexão emocional ou intelectual com o passado. Isso pode ser explicado pela psicologia como resultado de traumas históricos, e pode ser comparado a um mecanismo de defesa, como a repressão ou a negação, para evitar enfrentar aspectos dolorosos ou contraditórios de sua identidade. 

Há uma frase de Jung que se aplicaria a esse comportamento: 

"Até que tu te tornes consciente, o teu inconscientemente irá dominar sua vida e, tu chamarás isso, destino."

O auto menosprezo é um ato que reflete um complexo de inferioridade por sentir vergonha de aspectos de sua história e, ao invés de enfrentá-los, opta por rejeitá-los ou ridicularizá-los, como uma forma de se distanciar de uma imagem negativa. Essa característica pode ser transmitida por gerações e até ser defendida como sendo traços culturais. 

Essa desidentificação pode ser exacerbada por narrativas revisionistas que promovem uma visão linear do progresso, onde o passado é visto como algo a ser superado, em vez de compreendido e valorizado.

O comportamento coletivo é influenciado por narrativas culturais e sociais. Logo, se as elites, os meios de comunicação ou o sistema educacional perpetuam uma visão negativa de certos períodos históricos, isso pode moldar a percepção popular, levando ao desdém. É claramente o que aconteceu com o nosso povo. Como disse Jung, é "INCONSCIENTE".

Digo isso porquê não acredito que um povo que quer respeito de outras nações não pode se dar ao luxo de ser tão adepto da autossabotagem.

Desdenhar da sua história também está ligado com a baixa autoestima coletiva. 

Pois bem, nesse Carnaval de 2025(28/02), a escola de samba "Acadêmicos do Tucuruví", levou ao Sambódromo de São Paulo uma imagem que chocou e provocou debate: a cabeça de Dom Pedro II decapitada (o último imperador do Brasil), adornada com sua icônica coroa, enquanto uma figura indígena, com traços guerreiros e simbólicos, erguia a bandeira nacional acima dele. 

A cena, reflete uma visão injusta e de desprezo pelo legado de um dos governantes mais dedicados que o Brasil já teve.

- Dom Pedro II reinou por quase cinco décadas, de 1840 a 1889, em um período de estabilidade, avanços culturais, científicos e de infraestrutura, saneamento básico e iluminação pública em cidades como o Rio de Janeiro.

- Governou em um período de relativa paz interna, evitando revoltas generalizadas como as do início do século XIX. 

Sua habilidade diplomática também evitou conflitos externos graves após a Guerra do Paraguai.

- Embora a Lei Áurea tenha sido assinada por sua filha, Pedro II era abolicionista convicto e trabalhou gradualmente para o fim da escravidão, com leis como a do Ventre Livre (1871), que libertava os filhos de mulheres escravizadas.

- Elevou o prestígio do Brasil no exterior, sendo respeitado por líderes como Abraham Lincoln e Victor Hugo. Suas viagens à Europa e aos EUA fortaleceram laços culturais e econômicos.

A sua queda em 1889, por um golpe militar republicano, e o exílio forçado para a Europa revelam um tratamento desleal e ingrato que contrasta profundamente com sua dedicação e amor pelo Brasil. 

O povo, em grande parte alheio à política da época, não se mobilizou por ele, enquanto as elites e o novo regime republicano o viam como um obstáculo ao progresso, mesmo que sua monarquia fosse, paradoxalmente, um símbolo de modernidade para a América Latina.

A imagem de sua cabeça decapitada no Carnaval, perpetua uma visão reducionista e desrespeitosa. Dom Pedro II não foi um tirano, mas um estadista que, mesmo exilado, expressou amor pelo Brasil, pedindo que seus restos mortais fossem enterrados ao lado de sua esposa, sem pompa, em solo brasileiro — desejo cumprido apenas em 1921, após anos de esquecimento oficial. 

O "desdém" que o povo brasileiro cultivou historicamente, e que parece ecoar em representações como essa caravalesca, ignora o contexto de um golpe orquestrado por interesses políticos e econômicos e não por uma rejeição popular genuína.

A decapitação simbólica pode ser uma crítica ao imperialismo ou ao colonialismo, mas também pode soar como um aceno àquele mesmo revisionismo que, há mais de um século, justificou sua expulsão. 

Será que o Brasil, ao celebrar sua história no sambódromo, não poderia também reverenciar o homem que, com suas limitações, trabalhou incansavelmente pelo progresso nacional, sem jamais buscar o poder para si?

Dom Pedro II merece ser lembrado não como um monstro decapitável, mas como um líder cuja visão, mesmo em uma era de monarquias, antecipou valores republicanos como a educação e a igualdade. 

É necessário que a cultura brasileira seja remodelada com objetivos específicos de louvar a sua história e os seus heróis e não usar a primeira oportunidade para se autosabotar, como se quisesse enaltecer mais a história do outro país, do outro continente ou do outro continente. 

Esse traço cultural não pode mais ser cultivado pois é contraproducente com a mensagem do norte do país escrito na bandeira nacional: ordem e progresso. 

Sérgio Júnior

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Sérgio Junior
Sérgio Junior
Sérgio Júnior é um escritor e pensador brasileiro, graduado em artes da teologia, membro n°23 da Academia Internacional de Literatura Brasileira de NY (AILB).
Um romancista ficcional, analista de cenários sociais, poeta e filósofo.
Em 2021 e 2022, disputou os prêmios de destaque literário pela Focus Brasil na AILB, idealizado por Nereide Lima e na premiação "Melhor do Brasil na Europa ", pela revista "High Profile Magazine" na Inglaterra, por causa do sucesso do livro "Eu no seu funeral" lançado pela CRV editora no Paraná.

Recentemente, Sérgio Júnior tem sido notícia em vários portais na internet , por seu livro " O SEGREDO DOS NEGROS VENCEDORES " lançado em 2023.

Site do autor na Amazon.

https://www.amazon.com/stores/Sergio-Junior/author/B0927LMMFY?ref=ap_rdr&store_ref=ap_rdr&isDramIntegrated=true&shoppingPortalEnabled=true

Envie uma mensagem para Sergio Junior no WhatsApp. https://wa.me/message/QYDPF3DM3CTXA1
Ver notícias
São Paulo, SP
15°
Tempo nublado
Mín. 14° Máx. 20°
15° Sensação
5.66 km/h Vento
89% Umidade
12% (0mm) Chance chuva
06h25 Nascer do sol
17h53 Pôr do sol
Terça
25° 14°
Quarta
24° 16°
Quinta
28° 16°
Sexta
35° 18°
Sábado
37° 23°
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,15 +0,26%
Euro
R$ 6,01 +0,10%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 430,782,94 +1,22%
Ibovespa
172,036,95 pts 0.59%
Publicidade
Publicidade
Publicidade