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Cultura Rio Grande do Sul

SOBRE A IDENTIDADE DO GAÚCHO

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28/05/2024 às 19h31
Por: Celso Tabajara
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©Imagem de domínio Público
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Dizer-se que o gaúcho é meramente um mito, não faz sentido. Assim como não podemos desconhecer que a figura do gaúcho do passado, como muitos estudiosos tentam reproduzi-lo, carrega forte mitificação. Nem cá e nem lá, há um tipo humano chamado gaúcho, assim como ele se reveste, em muitos momentos de aspectos mitificados, seja pela literatura, seja pela pratica tradicionalista.

O antropólogo e professor Dr. Ruben Oliven, no seu livro “A Parte e o Todo”, ao explorar o tema da identidade do gaúcho, faz uma afirmação que merece ser bem analisada: “O modelo que é construído quando se fala nas coisas gaúchas está baseado num passado que teria existido na região pastoril da Campanha no sudeste do Rio Grande do Sul e na figura real ou idealizada do gaúcho. É em torno desse eixo que giram os debates sobre a identidade gaúcha (...). Se trata de uma construção de identidade que exclui mais do que inclui, deixando fora a metade do território sul-rio-grandense e grande parte de seus grupos sociais. Apesar do enfraquecimento do sul do estado, da notável projeção econômica e política dos descendentes dos colonos de origem alemã e italiana que desenvolveram o norte, da urbanização e da industrialização, o tipo representativo do Rio Grande do Sul continua sendo a figura do gaúcho da Campanha como teria existido no passado”.

Na mesma linha de raciocínio o antropólogo afirma que ainda mais excludente é a prática de relegar a presença do negro e do índio que, assim como os descendentes dos imigrantes alemães e italianos, não são parte importante na identidade do gaúcho idealizado.

O autor fixa a ideia de que o gaúcho, como figura idealizada, exclui parte do território e parte da população. Assim como põe em dúvida a própria existência do “gaúcho da Campanha”, dizendo: “... teria existido no passado”.

Na configuração do gaúcho como tipo cultural, é claro e compreensível que nele prevaleçam aspectos inerentes ao “gaúcho primitivo”, ou seja, ao tipo humano resultado da combinação étnica e cultural do indígena, do português, do espanhol e do mameluco brasileiro. A contribuição do índio, em temos culturais e, até, genética, foi pequena e se manifesta muito mais no uso de termos do que no aspecto comportamental.

Com relação ao imigrante alemão e italiano, que chegaram quando o “gaúcho” já tinha um delineamento bastante consolidado, sofreram influência e contribuíram também na consolidação do que temos hoje como “o gaúcho”. Por necessidade de pertencimento ao novo mundo em que entraram ou por desejarem integrar-se e, assim, assumir uma postura de protagonismo, os imigrantes absorveram grande parte dos hábitos e costumes dos gaúchos pré-existentes no Estado.

Barbosa Lessa, por seu turno, diz que a formação inicial da cultura do continentino (natural do Continente do Rio Grande do Sul) apresenta aspectos diferenciados em razão de fatores locais, da geofísica do Estado, da lida em torno do gado e do cavalo, da proeminência do militarismo como contingência das guerras de fronteira e assim por diante.

Os diversos viajantes europeus que circularam pela província e escreveram sobre o gaúcho, são unânimes em reconhecer um acentuado apego à terra e ao pago. As prolongadas campanhas militares fortaleceram esse espírito, assim como fizeram estreitar os laços entre os patrões e peões. A respeito desse aspecto, Lessa (1985) afirma: “Dez anos de guerra estreitaram os laços de solidariedade entre famílias patriarcais e galpões, entre querências e pagos, na busca de estabilidade territorial para o Estado...”.

Outro aspecto da cultura sul-rio-grandense resulta do gosto pela palavra. Isto foi adquirido pelos gaúchos, o que proporcionou o desenvolvimento de uma gama impressionante de metáforas, analogias, comparações. Um linguajar galponeiro que chega quase a se constituir num dialeto do idioma português. Decorre principalmente dessa característica a arte de contar “causos” e o desenvolvimento da trova galponeira e da pajada.

“O deserto e a solidão fizeram-nos taciturnos e silenciosos” afirmou Manoelito de Ornellas, referindo-se ao gaúcho primitivo. De alguma forma, a transmutação que sofreu o gaúcho, passando de total liberdade, dependente de si mesmo, com a pampa a sua mercê, para a situação de peão de estância ou de integrante de milícias, criou as condições para a alteração: de mudo para o contador de causos, de silencioso a falador nas rodas de chimarrão. O que todos concordam é que permaneceu certa tristeza endêmica no gaúcho que tinha dentro de si a marca indelével de “me basto por mim mesmo”.

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