
O Rio Grande do Sul ainda vive os duros golpes da tragédia anunciada, cujo estado não teve a boa vontade de informar, no intuito de salvar vidas, bem como ainda não tem o de efetivamente reconstruir o que sobrou. Mas nem tudo acabou mal.
O amor faz milagres, e em meio ao sofrimento, o milagre que vou denominar AL, nesse momento se encontra segura e feliz.
A história que vou lhes contar, teve a permissão dos envolvidos para que eu o faça.
Foi em 13 de maio de 2024 que LO - Lulu, e MBDR – Bia -, como voluntárias, receberam no abrigo organizado na Escola Paulo Freire, em Canoas/RS, a menina AL e sua mãe G, depois de as duas terem sido expulsas do primeiro abrigo que as acolheu. A expulsão aconteceu pelo comportamento desrespeitoso da mãe em relação a menina, aos voluntários e demais abrigados.
Desde o primeiro dia no novo abrigo, AL e a mãe, denominada G, já começaram a causar desconfortos.
Na verdade AL não tem culpa, pois se trata de uma menina de 21 anos, com aparência de 10 e idade mental de 2, sem tratamento médico adequado e vítima de maus tratos por parte da mãe, que também apresenta, em grau imenso inferior ao da filha, problemas mentais, sem qualquer tratamento.
O fato é que Bia e Lulu, ao ingressá-las no abrigo, perceberam que a menina apresentava sangramentos de feridas abertas na cabeça, mãos e rosto e sinais de agressão, como arranhões, hematomas e queimaduras de cigarro pelo corpo e face, além de piolho e carrapato, demonstrando clara a negligência da mãe em relação a menina, que cheirava mal, pois a mãe não procedia a higiene adequada.
Foi observado em poucos dias, para ser mais exata, menos de 48h, além da violência física, a violência moral e psicológica, fazendo com que AL perambulasse aos gritos e em choro convulsivo pelo ginásio, diante do convívio com G, que aos olhos de todos, não se privava de ser agressiva com a filha.
Foi no dia seguinte ao ingresso no abrigo que ambas, mãe e filha, foram atendidas pela psicóloga voluntária do mesmo,que além de chamar a médica, também voluntária, para prescrição de medicamentos para ambas, ainda fez solicitação de exames neurológicos, bem como pediu acesso ao histórico médico da menina à Secretaria de Saúde de Canoas, descobrindo registros de denúncias por maus tratos com AL, e boletins de ocorrência anteriores ao período da enchente no estado do Rio Grande do Sul, e da existência de receituários de prescrições de medicações que nunca foram administradas.
Mas foi em razão das marcas de queimadura de cigarro e da denúncia de abrigados, agora da Escola Paulo Freire, de que AL estaria andando seminua pelo abrigo e no banheiro masculino, puxada pelo braço por sua mãe, que a psicóloga solicitou avaliação do Conselho Tutelar - CT, ocorrida em 15 de maio, sem resultado efetivo em defesa da menina.
Foi também solicitado pela psicóloga o encaminhamento da AL à Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento de Canoas para exames que comprovaram, segundo laudo médico, abuso sexual.
Em 16 de maio foi chamada por Lulu e Bia, para comparecer no abrigo, a Polícia Civil, que disse não poder fazer nada, uma vez que não tinham um flagrante dos abusos.
Com provas sobradas de maus tratos e abuso de vulnerável, e sem o comparecimento de outros familiares da menina, a psicóloga, Lulu e Bia registram boletim de ocorrência e com a ajuda de amigos, conseguiram a curatela provisória de AL e a conduziram para abrigo privado.
Lulu e Bia, a partir daí se encarregam dos cuidados com AL. Exames e consultas das mais diversas especialidades para avaliações e condução aos necessários tratamentos, além de maciças doses de muito amor e carinho, com muitos passeios e convívio com a família de ambas, onde passava os finais de semana.
Se esmeraram, Lulu e Bia, na aquisição de roupas, sapatos e brinquedos adequados para AL.
Juntas, as três, preparavam bolos, brincavam em parques, na varanda de casa, sempre com muita alegria, fazendo com que os gritos e choros convulsivos desaparecessem, abrindo espaço para abraços, cafuné e sono tranquilo.
Com a ajuda de amigos, fizeram, e eu compareci com imensa alegria e honrada pelo convite, a festa de aniversário de 21 anos de AL, que estava sorridente, mais balbuciante que nunca e curtindo seus presentes e as delícias preparadas por mãos amigas e amorosas.
Porém, as coisas não são fáceis e logo em seguida, G e outra filha solicitaram a guarda da menina, bem como a concessão dos benefícios dela, congelados a pedido de Lulu e Bia, que abriram mão desse, preferindo custear, com a ajuda de amigos, as necessidades de AL.
Lulu e Bia me procuraram, pois temiam que AL voltasse a sofrer abusos e maus tratos.
Contatei com uma amiga advogada, iluminada e de imenso coração, que vou chamar de Dona Encrenca - Patrícia Munhoz -, pois o caso era uma imensa, que abraçou a causa, pro bono.
Aconteceu a audiência em 1 de agosto, onde G e a outra filha, bem como Bia foram ouvidas e, por determinação da justiça foi mantida a curatela em nome de Bia, até que, também por determinação judicial, fosse entrevistada a irmã que manifestou interesse na curatela de AL, para só depois do laudo da assistente social que fez a entrevista, determinar a curatela permanente.
Em 24 de setembro sai o laudo da assistente social, que conclui:

Após o recebimento do laudo, Dona Encrenca diz que a partir desse momento, era necessário definir a curatela, se Lulu ou Bia, uma vez que agora seria a definitiva.
Lulu então resolveu que queria mais que a curatela. Queria a guarda definitiva, queria ser a mãe, e Dona Encrenca começa a preparar a documentação, com calma, afinal, a curatela já estava definida, mesmo que provisória.
Mas como eu disse acima, nada é fácil, ou tão tranquilo ...
Em 10 de outubro, anteontem, enquanto visitava AL no abrigo privado, à tarde, Bia foi procurada por um dos internos (o abrigo é misto) que falou sobre uma situação que poderia ser prejudicial à AL.
Depois de consultar Dona Encrenca, junto com Lulu, Bia faz uma ocorrência (B.O), no dia 11 e, logo após via até a casa de acolhimento para buscar AL.
Nesse momento, ao tentar retirar AL do abrigo, Bia foi impedida por ordem do responsável pela casa, sendo necessário solicitar a presença da Polícia Civil que, já ciente de tudo o que estava acontecendo, se deslocou até o local, o que permitiu que Bia retirasse Al e seus pertences do abrigo.
Logo após, Bia contata Lulu. Ela e o marido, que moram em outro município, pegam o carro e vão até Canoas, para junto com Bia darem o suporte necessário a AL.
Como já disse, a intenção de Lulu e esposo já era de adotar AL.
Toda essa situação só apressou as coisas e o final é verbo/ação MAIS QUE PERFEITO.
Hoje pela manhã, em chamada de vídeo, Lulu, com sorriso de orelha a orelha, repetia: minha filha, minha filha.
Eu, com muitos ciscos nos olhos, vi um pai sentado ao lado da filha, assistindo desenho animado e uma mãe saltitante de alegria arrumando o que será o quarto da, como diz Lulu, recém-nascida. AL era um imenso sorriso, sentada com as pernas num puff, rodeada de brinquedos, interagindo com Jé, como ela chama o pai.
O olhar e sorriso de AL é a certeza de que estivemos no lugar certo e na hora certa.
A certeza de que o Universo/Deus Pai e Filho, conspiraram, usando anjos como Verinha, Léo e Marcos, que me levaram até Lulu e Bia.
Em meio ao caos, o AMOR é vencedor.